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OS MELHORES CDS DE 2009 OU PRESENTES DE NATAL

Alguns simpáticos leitores do blogue mandaram-me mensagens perguntando quais foram os discos de música clássica de 2009 que mais gostei; e que poderiam ser bons presentes para oferecer. Achei a proposta fascinosa para quem é crítico nenhum de música clássica, mas apenas um amante com uma inflamação prolongada.
Cá seguem as propostas, sublinhadas apenas pelo gosto.

Haydn: Quartetos para cordas
Op. 20 nº 5, op. 33 «O Pássaro», op. 76 nº5
Quarteto Jerusalem
Harmonia Mundi


Perfeição de som, perfeição de entoação, perfeição entre o respeito da letra e a leitura lírica. Estes quartetos assim tocados cantam porque é que Haydn é o pai do Quarteto. O «Pássaro» levanta voo, canta, e fala de manhãs impossíveis de morrer mesmo que o corpo deixe o corpo.
Música das manhãs de Sábado quando a luz do possível reveste tudo de infinito.



Vivaldi: Concertos para dois violinos
Guiliano Carmignola, Viktoria Mullova
Venice Baroque Orchestra, Andrea Marcon
Deutsche Grammophon

O mundo é possível depois deste disco: a vitalidade necessária para o reinventar salta aqui em cada corda, em cada movimento, na alegria de viver. O Vivaldi de "As Quatro Estações" é inventivo, mas há mais vida para além disso. Este disco prova-o a cada nota. Cuidado com os vizinhos.




Beethoven: Integral das 9 Sinfonias
várias orquestras, Hermann Scherchen (anos 60-70)
Tahra


Se quer descobrir um Beethoven inventivo, inquietante, quase modernista, é esta a sua interpretação. Ninguém sai da releitura de Scherchen inteiro: é uma revisão radical de um chão mental e sonoro onde o Ocidente se funda. E com isto somos todos mais livres, e somos todos mais novos. Ouvir a Sétima ou a Oitava nesta precisão de ritmos quase modernistas, nesta velocidade de ver interiormente, é nascer de novo dentro do próprio nascimento.





Russian Historical Archives: Maria Yudina
Brilliant Classics


Esta caixa é de Pandora, mas ao contrário: saem de lá liberdades inimagináveis. Esta mulher russa, que gravou dois concertos de Mozart noite fora para um ditador ouvir, é rigor e liberdade. Um segredo: Glenn Gould nasceu na barriga das mãos desta senhora. Mozart como nunca se ouviu, Schubert fresco sem viagens de Inverno.






Dinu Lipatti
Colecção «Icon»
EMI


A Emi lançou este ano uma extraordinária colecção a preços relativamente acessíveis (se fizermos a conta por cd) estas caixas dedicadas a grandes intérpretes: Schnabel, Hotter, Kreisler, entre outros. E pelo meio, Lipatti. Já lhe chamaram tudo. Eu não hesito em chamar-lhe Cristo do Piano. O que sai de cada nota, a morte ampliou em luz. É a música mesma.



[Outros cds, não saídos este ano, mas que ouvi obsessivamente como novos: os concertos para Clarinete de Weber por Martin Fröst (Bis); a Sinfonia Espanhola de Lalo por Isaac Stern e Eugene Ormandy (Sony); e claro, sempre, a Sétima de Beethoven por Carlos Kleiber (Orfeo), porque não é possível levantar-me todos os dias de manhã sem essa parte do sopro de Deus.]

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