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A Igreja Católica e o casamento gay, I


Fui informado por vários amigos em diferentes zonas do país de um acontecimento ominoso: à saída de várias missas estão pessoas, católicos, a recolher assinaturas contra o casamento homossexual. Pior que isso, muitas vezes os párocos em plena missa avisam para a sua presença e invectivam os presentes a assinar essas folhas.

Sou profundamente católico. E por isso mesmo, este acontecimento - esta sequência combinada de acontecimentos, esta campanha, que só pode estar a ser orquestrada com a anuência de alguns movimentos religiosos e figuras importantes da hierarquia católica - enche-me da mais rigorosa indignação.

A Igreja Católica foi desde a queda do Império Romano dominada por uma facção que a procurou controlar, suprimindo todas as outras correntes de pensamento; uma facção ortodoxamente dirigista nos costumes, cega no diálogo interreligioso, violenta na supressão de outras correntes. Serviu-se sempre da sua proximidade com o dinheiro e de uma máscara de uma certa perfeição de rigor doutrinal para suprimir as outras. Gerou aberrações extraordinárias como a maioria dos Papas da Renascença, todos os cismas que dividiram a Igreja, assassínios em massa de outras correntes, a tentativa de suprimir arte e progresso científico. Porém, é esta a Igreja que eu amo, estando ela gerida por gente surda ao Espírito e para quem a condução da presença de Deus na terra é similar a uma entidade bancária com vagas preocupações extra-estelares. Eu sou católico e integro-me nesta Igreja porque acredito que a luta do Espírito Santo para mudar a Igreja Católica passa pela conversão dessa facção. E que passa concretamente por mim, pela minha liberdade e conhecimento disso mesmo, pela minha liberdade e natureza única da relação com Deus para agir contra interiormente contra esse ambiente.

Um dos aspectos mais devastadores dessa acção, ao longo dos tempos, foi uma intromissão legislativa sobre a única - a única - dimensão no mundo que não pode ser controlada por nenhum outro ser: a relação de uma pessoa com Deus. Acredito e aceito que o clero católico, em particular o Papa e os seus documentos, e as reuniões dos Bispos, têm o dever e a necessidade de se pronunciar sobre a eucaristia e a gestão dos sacramentos. Mas a partir daí o seu papel é apenas sugestivo sobre a forma de cada cristão viver interiormente aquilo que Deus lhe pede. Falo da liberdade de cada um viver a sua relação com Deus, que é única. Não é única a relação que se estabelece entre quaisquer dois seres humanos? Entre quaisquer dois seres, humanos e não-humanos? Não será ainda mais única a relação entre criador e criatura?

Essa pressão, que não cessa e que aumentará, inexoravelmente, da hierarquia católica sobre a vida interior e suas consequências em cada cristão, é a dimensão mais anti-Evangelho que conseguirei imaginar. Teve o seu corolário com o recente convite de Ratzinger aos anglicanos que se opunham à ordenação de mulheres e de homossexuais. Um convite que não se baseia - como em tudo nesta corrente que gere a Igreja Católica - em nada, repito NADA de teológico (ah, venham para cá, e não é preciso dizer não às antigas questões que nos separam) mas apenas opor-se a essa questão para serem aceites. Se este perdão considerar um perdão da Igreja pelo assassínio em massa de todos os cátaros e gnósticos que orquestrou em plenas cruzadas durante a Idade Média, compreendo que alguma coisa mais se passará, e que teremos então um processo de afrouxamento dessa dimensão controleira da moral. Mas o convite de Ratzinger não parece isso. E esta nova dimensão portuguesa contra o casamento gay mostra infelizmente isso. Não me venham com questões regionais. Séculos de práticas cancelatórias falam mais alto.

Que tem a Igreja Católica que meter-se num assunto que é de dois seres, antes de mais de ser do Estado, e que tem apenas a ver com a criação de situações legais para duas pessoas juntas? Que é apenas sobre a mais plena liberdade de dois seres que podem ter consigo mesmos, e portanto com os Deus que os criou e os cria a cada instante, assim na Terra como no Céu. Ou quer isto dizer que a Igreja Católica os acha condenados no Céu, e por isso os condena na Terra?

Quero ver a Conferência Episcopal Portuguesa pronunciar-se sobre isto. E quero ver ainda mais, se não se pronunciar, a liberdade dos filhos de Deus em prática, aceitando que à porta das Igrejas - sem avisos dos párocos - estejam lado a lado assinaturas a favor e contra o casamento gay. Isto sim é a liberdade de perceber que «na Casa do Pai há muitas moradas»: uma das citações de Cristo que a Igreja Católica parece ter menos compreendido.

Comentários

José Miguel disse…
Caro Pedro Sena-Lino

Creio seres o mesmo que conheci há anos, de Paço d'Árcos, à procura da sua vocação.

Alegro-me por amares a Igreja... só não percebi qual, pois afirmas que aquela cuja garantia de unidade e continuidade com a Igreja apostólica, assente na figura do sucessor de Pedro, é uma mera facção que visa controlar a vida das pessoas.

A missão da Mãe sempre foi apresentar caminhos de bem aos filhos, ainda mais quando os vê correr riscos de se magoarem por se guiarem apenas pelo que sentem, esquecendo o sentido e significado profundo e eterno das escolhas que fazem em cada momento.

A união homem/mulher é anterior ao cristianismo: está presente na ordem natural do ser humano, onde identidade feminina e masculina são diferentes e convocadas uma para a outra. Na sua união resplandecem na sua identidade e complementaridade.

O Cristianismo veio depois a descobrir nisso a intenção original do Criador que separou para reunir o que só na comunhão experimenta ser imagem e semelhança de Deus-comunhão.

Há um sentido que é anterior, maior e posterior que a união dos afectos. Reduzir a relação entre humanos ao sentimento afectivo que se nutre reciprocamente, é truncar-lhe a dimensão social, histórica, antropológica, eterna... para não dizer encerrar-se numa roda de sentimentos que se originam em si mesmo, correndo o risco de se esvaziarem e terminarem em si mesmos.

A Igreja é o instrumento escolhido por Deus para convocar o género humano a não deixar encerrar-se nos ritmos passageiros mas a devolver-lhe sempre o horizonte do desígnio eterno de Deus. É o que se passa quando uma cultura quer reduzir as relações humanas aos ritmos das escolhas pessoais e sentimentais.
Sentir e escolher são condições essenciais para se amadurecer como pessoa... mas igualmente insuficientes e tantas vezes ilusórias. Não basta escolher para ser livre... é preciso ser libertado! Não basta sentir para ser feliz... é preciso encontrar o sentido! Esse é o caminho que os cristão procuram aprender e fazer há anos, com altos e baixos... na certeza que as maiores atropelos aconteceram sempre que pessoas e grupos dentro dela pretenderam eleger o seu modo de sentir e pensar como o único que respeita o Evangelho.

Se queremos não voltar a cair nesse erro, o caminho é o da comunhão de todos guiado pelo sinal de unidade que é o Sucessor de Pedro. Negar isto é ver suspeitas e manipulações em todo o lado, pois cada um passa a tornar o critério definidor do que é bem ou mal.

Termino, recordando: aquilo que começa por ser uma reivindicação como escolha interna de um casal, tem sempre repercussões no tecido social: estabilidade emocional, modelo de família, segurança afectiva, organização e sustento social, renovação das gerações, educação e valores... Já era tempo de termos aprendido com o passado e com a Sagrada Escritura, que a dificuldade reside muitas vezes no que provém do coração (cf. Mt 15, 17ss), que por isso precisa de ser guiado e elevado.
Paula Alcântara disse…
Não poderia estar mais de acordo contigo Pedro! A tua linha de argumentação está, simplesmente, genial. E não deixa de ser profundamente lamentável constatar, mais uma vez, um comportamento completamente anti-católico praticado pela própria Igreja Católica...
A mim o que me parece é que a Igreja vive num grande recalcamento por já não controlar o Estado, como fez durante muitos e muitos séculos, em que fez o que quis e bem lhe apeteceu.
A Igreja tem as suas regras quanto ao que é ser família e tem todo o direito a isso e a defendê-lo. Mas parece-me que aqui a questão não se trata de um casamento católico ou sequer religioso. No entanto, o que se passa aqui é uma instituição querer manipular uma questão que é meramente da competência do Estado. Afinal, segundo o casamento civil, o casamento é um contrato entre duas pessoas que, segundo sei, a lei nem sequer define que tem que ser realizado entre pessoas de sexos opostos. Acho muito engraçado a Igreja gastar tantos esforços a lutar contra este casamento civil no lugar de lutar pelos direitos das famílias. O mundo está em crise, assistem-se a desigualdades atrozes, ataques à questão essencial do ser família e contra isso eu não vejo a Igreja fazer nada. Porque é que não criam uma plataforma de luta contra a lei do trabalho que obriga que as pessoas saiam de suas casas e das suas famílias para irem trabalhar aos Domingos, no dia do Senhor? Não está escrito também que trabalhar no dia do Senhor é pecado?
É uma pena que a Igreja se afaste cada vez mais da essência da mensagem e exemplo de Jesus e se aproxime, cada vez mais também, dos ideias daqueles que O mataram.

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