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comentário a um comentário ao post anterior

Faço este post em resposta a um comentário aqui colocado ao post anterior, "A Igreja Católica e o casamento gay, I". O "II" seria para me deter um pouco mais precisamente no significado da expressão "casamento gay", mas pelos vistos não tive tempo. As reacções vieram cedo demais. Agradeço todas. E por isso mesmo aqui segue em forma de resposta em carta aberta, a todas mas em particular a José Miguel que teve a delicadeza de ler a minha opinião e responder, o que desde já agradeço.

Um dos pontos da sua resposta dizia, e cito: «A união homem/mulher é anterior ao cristianismo: está presente na ordem natural do ser humano, onde identidade feminina e masculina são diferentes e convocadas uma para a outra. Na sua união resplandecem na sua identidade e complementaridade.»

Sublinho as palavras «ordem natural». O meu texto não incidia directamente sobre o casamento gay, nem mais precisamente na minha opinião sobre até se concordaria com a expressão, mas apenas com o facto de ser possível a existência de uma situação prevista em lei para duas pessoas, e a reacção de alguns sectores da Igreja Católica a essa questão. De facto, e posso dizê-lo desde já, não creio que a expressão seja a mais correcta. «União civil» parece-me bem mais interessante. Não porque considere a união entre duas pessoas do mesmo sexo uma união segunda ou espúria, mas porque há passos para dar devagar dentro da cabeça das mentalidades, e também porque a palavra "casamento", mesmo sem a considerar do ponto de vista da minha religião (procuro sempre distanciar-me para ver melhor, é uma questão de abordagem que procura o conhecimento) está muito relacionada em termos civilizacionais com a matriz católica.

De toda a forma, bastará qualquer pesquisa que não se oriente por um ponto de vista surdo e reescrevente da história da humanidade para identificar que no ser humano, tal como na natureza repleta de milhares de outros seres, há desde muito cedo sobre a Terra indicações de relações entre dois homens ou duas mulheres. Aquilo que é identificado como «ordem natural» é a ordem da Natureza, e a Natureza define-o claramente. Não vou soterrar este texto de reencaminhamentos históricos antiquíssimos ou de dados científicos recentíssimos. Isto para dizer que é cada vez mais claro que ninguém pode arrogar-se a usar a expressão "ordem natural". Mas sim que a questão da identidade masculino/ feminino é uma questão que não se fecha apenas na genitalidade de cada um, mas é muito mais complexa e profunda. A "união homem/ mulher" gera outros seres, é irrevogável: mas não somos apenas chamados a procriar na carne, mas no espírito. Perceber que muitas outras uniões passam por isso é então dizer que a entrega de um homem ou de uma mulher por absoluto a uma vida de consagração religiosa vai contra a "união homem/ mulher": também não procria, logo vai contra a "ordem natural". Não posso ser mais contra essa acepção, porque precisamente acredito que muitas relações que "procriam no espírito" - e agora cito Platão - "que procriam no belo" passam além da união homem/ mulher.

Vem depois no comentário de José Miguel o argumento que «reduzir a relação entre humanos ao sentimento afectivo que se nutre reciprocamente, é truncar-lhe a dimensão social, histórica, antropológica, eterna...». Portanto, deduz-se desta afirmação que o afecto recíproco trunca. A psicanálise caminha há cem anos, estudadamente, e pelo menos a partir daí é claro e notório de que a verdade que existe para cada ser humano é a dos seus sentimentos. Como pode um ser viver sem os seus sentimentos? Será tão vivo sem eles como uma pedra. É nas relações que o infinito se transmite e passa («o que fizerdes a cada um destes pequeninos, a Mim o fareis»): um cristão sabe que cada ser com que se relaciona é Deus em presença, em fim. Em todas as relações. Não viver o "sentimento afectivo" - se há sentimentos que não são afectivos... - é, e cito José Miguel, "encerrar-se numa roda de sentimentos que se originam em si mesmo". Na Igreja, os crentes, irmãos, encontram-se no mesmo caminho para o "horizonte do desígnio eterno de Deus" (José Miguel dixit): para não serem fechados aí; a Igreja é envio, "Missa" vem de "missa est", são enviados. O que celebramos dentro, é para ser vivido fora.

«É o que se passa quando uma cultura quer reduzir as relações humanas aos ritmos das escolhas pessoais e sentimentais» (continuo a citar o comentário). Mas nenhuma cultura quer reduzir as relações humanas a ritmos! Conhecem alguma? Só as totalitárias, que todos esperamos de infeliz memória, repetíveis nunca mais. O que se trata é precisamente de criar mecanismos que permitam ampliar as relações humanas: e o problema é que estamos a assumir que há outros, iguais a nós, que uma noção legal torna de facto iguais. Já não digo iguais em termos de oportunidades perante a Lei entre duas pessoas do mesmo sexo que se podem equiparar a duas pessoas de sexo diferente: o escândalo, o problema, é precisamente outro: tornam-se notórios, iguais aos outros no mundo. Deixam de ser uma coisa impronunciável (que o perseguido também espero ter já acabado), um silêncio que toda a gente conhece mas não diz, mas estão perante a luz iguais. Não é isso que Deus quis quando nos formou iguais, e nem preciso de citar a Constituição Americana, «all men are created equal», escrita por bravos homens profundamente cristãos? Então, igualdade de oportunidades.
Se a Igreja Católica quer, para os seus crentes, indicar que discorda disso, é um trabalho a fazer com os seus crentes - coisa que, no meu ponto anterior, me parece ter ficado bem claro de que discordo. Mas ainda menos legislar na sociedade ao ponto de querer impedir essa igualdade. Que venha a igualdade, e que a Igreja contribua para o esclarecimento do que considerar. Agora: negar essa liberdade é, notoriamente, contra o coração da mensagem cristã.

«Na certeza que as maiores atropelos aconteceram sempre que pessoas e grupos dentro dela pretenderam eleger o seu modo de sentir e pensar como o único que respeita o Evangelho.» Sim: aconteceram, mas dos dois lados da questão. E por isso é que não houve união, só divisão. O Budismo está cheio de correntes diversas, que não se combatem, mas são várias visões da mesma questão. Coincidem, têm até o mesmo guia espiritual. Porque é que não aconteceu o mesmo com o Cristianismo: porque dos dois lados da questão, mas sobretudo do lado da Igreja Católica (perdoem-me, vou citar de novo) «pretenderam eleger o seu modo de sentir e pensar como o único que respeita o Evangelho.» [E assim, sobre o que tomei ser apenas uma sua liberdade expressiva ao referir que não percebe que Igreja amo, porque a considero «uma mera facção que controla a vida dos outros», penso termos todos ficado claros.]

«A missão da Mãe sempre foi apresentar caminhos de bem aos filhos, ainda mais quando os vê correr riscos de se magoarem por se guiarem apenas pelo que sentem, esquecendo o sentido e significado profundo e eterno das escolhas que fazem em cada momento», diz o comentário (sendo "Mãe" a Igreja Católica). Precisamos portanto de um legislador sobre nós mesmos, um polícia para o sentimento, já sem falar de um polícia para a alma. É essa a visão que tem da Igreja Católica? Antes disto vem a fé, a relação de amor que cada ser tem com o seu Deus. Lamento não ter encontrado a palavra "fé" no seu comentário. Eu faço questão de a repetir três vezes, como a Trindade. A Igreja é onde se encontram os homens que partilham a mesma fé e a celebram com todas as suas limitações e a sua procura do infinito: não é procurar um reduto ou uma armadura para se dividir internamente a si mesmos ou perante os outros seres. Agradeço a sua felicidade pelo meu amor pela Igreja, mas temos visões diversas dentro da mesma casa, e isso é, repiso, as muitas moradas que Cristo dizia haver na casa do Pai. É que eu não disse nada, aqui e agora, neste post ou no anterior, que fosse anti-Evangelho.
E sobre a dimensão pessoal que colocou no início do seu comentário, sobre a "procura da minha vocação". Estou feliz por a ter encontrado e encontrar a cada instante: e perceber que a cada momento ela não é imutável, que Deus pede o mesmo ser a recriar-se a cada instante e a cada momento. É isso que é a Criação, ser continuamente criado por Deus. Ser chamado a ser ele mesmo, e a agir e construir-se, e com isso ser o próprio processo com que Deus cria. É para isso que sou chamado a cada instante: a ser com Ele mesmo igual a todos os homens: «Amai a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a vós mesmos»: e o próprio Cristo dizia ser este o maior mandamento. Criados iguais.

Comentários

José Miguel disse…
Li o seu segundo texto.

Temos, evidentemente, noções muitos diferentes sobre alguns pontos.

Em primeiro, a noção de verdade.

É respeitável a conclusão da psicanálise de que "a verdade que existe para cada ser humano é a dos seus sentimentos".

Mas não se pode pretender que seja o único pensamento aceitável. Até porque a experiência humana acessível a qualquer um é a de que muitos dos sentimentos induzem ilusões, relativismos, preconceitos, etc...
A verdade é anterior e posterior ao sentimento. É uma busca permanentemente perseguida, tanto no interior da consciência como no acolhimento do que é revelado.

Donde também nos afastamos na noção de liberdade. O sentimento é capaz do melhor que há na natureza humana (oblação, entrega, generosidade gratuita) e também dos maiores caprichos e aprisionamentos. Tantas vezes é necessário libertar a liberdade para nos alargarmos e podermos ser realmente livres. Por isso é abusivo deduzir que "o afecto recíproco trunca", mas pode-se reconhecer com honestidade intelectual que "a redução das relações entre humanos ao afecto que se nutre reciprocamente" trunca.

Há de facto na nossa cultura a tentativa de impor o pensamento único de que o bem está garantido pela autonomia da vontade e do pensamento. Tem o mérito de promover a saudável e necessária maturidade da consciência. Mas à custa da verdade sobre o próprio Homem condenando-o à escravatura do sentimento e do subjectivismo.

Vem depois a noção de identidade.
Esta integra a dimensão espiritual, psíquica e corporal, como nos diz a antropologia paulina, conjugadas quer na irrepetibilidade do indivíduo quer na dimensão comum ao género humano. Identidade essa que se estrutura e amadurece na relação com outras identidades: o conhecimento do outro, na sua diferença, clarifica a consciência de si.
Integrar a sexualidade neste horizonte é recusar que a identidade e a orientação sexual sejam definidas apenas por critérios de genitalidade mas também apenas por razões outras: o corpo não é um acidente nem um meio, o corpo também sou eu, tanto psiquicamente como bio-morfologicamente. Por isso só pode considerar arrogante falar de ordem natural quem se arrogue no direito de definir que a bio-morfologia é um elemento acidental da identidade de cada pessoa.

Vem agora a noção de igualdade.
Há quem a considere sinónima de igualitarismo: anulam-se as diferenças e distinções para todos serem iguais.
Ora isso agride a unicidade e especificidade de cada um. A igual dignidade de todos e cada um exige precisamente o contrário: que se reconheçam as diferenças, criando espaços de cidadania para o que é diferente e lutando para que assim seja tratado. Por isso é que não basta discutir nomes, mas é necessário discutir significações e consequências. A Igreja não recusa espaço a diferentes uniões... mas olha-as nas suas diferenças, tanto no que oferecem aos intervenientes quanto no que têm de significação social, e considera que a sociedade só pode valorizá-las respeitando-as nas sua diferenças.

Termino falando de fé. Esta é também diferente de sentimento religioso. A fé cristã é participação/mergulho na relação própria do Filho com o Pai, que assim nos configura com Ele. Implica uma transformação para a santidade, definida por São Paulo como uma humanidade nova. Trata-se de ser guiado por Cristo num caminho de libertação, prefigurado no êxodo e consumado na Cruz. No dizer de São Paulo, é crucificar as paixões, para viver na liberdade dos filhos de Deus. A fé cristã é uma realidade comunitária, não um sentimento... é uma libertação oferecida, é um chamamento a ir e ver, sob a condução do Filho, sem que isso nos menorize ou configure um policiamento... Condução que se realiza por meio da Igreja e do ministério apostólico(cf. Mt 18, 17-18), e do ministério do sucessor de Pedro (cf. Mt 16, 18-20; Lc 22, 32)

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