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333 e Teixeira-Gomes


Aqui cito excerto de um texto que li na Biblioteca Manuel Teixeira-Gomes de Portimão, numa sessão sobre 333, em que tive ocasião de agradecer a marca profunda que o escritor algarvio gravou em mim - neste ano em que começamos a celebrar os 150 anos do seu nascimento.


os livros são casas. são casas no silêncio. e como todas as casas, têm de existir sobre uma terra que os sustente. se há uma terra para a poesia que escrevi, é o Algarve. devo começar por dizer que vou fazer um itinerário de afectos, um percurso interior com marcas, curvas e contracurvas. mas que ainda antes de começar quero agradecer a oportunidade de estar aqui convosco, e esta, de fazer este percurso – que como todas as construções, só faz sentido se fôr partilhada, visitada.
foi neste Algarve que os meus pais se conheceram, foi neste Algarve que fui gerado, foi neste Algarve, que ainda conheci rural e menos urbanístico, em que morri pela primeira vez. eu devia ter menos de dois anos quando, junto dos meus irmãos e dos meus primos, me fixei num peixe junto de uma rocha. brilhava em tons azuis, verdes, imateriais. baixei a cabeça para o tentar apanhar. e não me lembro de mais nada: só da água nos pulmões, a estalar a respiração, a quebrar o ar, e eu a sentir a assinatura de Deus pelo corpo todo.
fui salvo pelo meu pai por segundos, de acordo com ele. teria morrido. posso confessar que ainda hoje, em momentos de uma emoção que transcende o meu corpo, as minhas raízes, eu sinto os pulmões estalarem – como se me fosse dito é para isto que foste vivo. no meu terceiro livro de poesia, biofagia, está um poema sobre este acontecimento:

v.[primeira morte]
os charcos da água salgada
na praia ouvia-se o estrépito de pequenos pés
e a cabeça mergulhada no azul todo
o esquecimento dos outros até onde
eu ia morrendo de água nos pulmões
até à comunicação de um estado líquido

narciso bêbado do espelho
dois anos e já o esquecimento caminho claro
suicídio de água

esse estalar, da vida que foi roubada à morte, foi aqui no Algarve. como se eu fosse para outro destino, e esta terra quisesse gravar-se no mais fundo do meu peito, nas raízes de ar da minha existência, e me pedisse que a escrevesse. não é conversa para agradar a Portimoneses: foi de facto nesta praia que mais tarde eu comecei a escrever. eu era um veraneante de livros – era no mar e na praia que eu lia ferozmente. a partir dos sete anos, quando o meu pai me ofereceu uma história universal ilustrada, e passei o verão do Algarve a devorá-la, de trás para a frente. foi aqui que nasci para a leitura: o verão era uma promessa infinita de páginas e de um deserto aquático interior.
e foi nesta longa praia que é o Algarve que a minha poesia nasceu, num dia de Verão.
mal saberia eu que, num outro dia, aqui também decidiu nascer 333, na praia de S. Rafael, em Junho de 2008. e aqui contrario o dono desta casa, e meu mestre de escrita Manuel Teixeira Gomes, talvez o escritor preferido da minha família, quando diz, nos seus Regressos, contra ele mesmo falando: «Êsse canto do mundo é terra morta para artistas». (...)

Teixeira-Gomes, ainda: a minha avó e outros membros da família são viciados na sua obra. tive a sorte de guardar para mim os exemplares que foram da minha avó, com as linhas sublinhadas por ela, a terra do Algarve e o mar a abraçarem-se. como nestas linhas, das Cartas Sem Moral Nenhuma de Teixeira Gomes, que parecem ter sido escritas para mim, relatando o processo de luta que foi escrever este livro:
«Um estilo que queima, lavra lentamente, e consome-se, não deixando na memória mais do que cinzas, e até, fisicamente, na boca do leitor o saibo a cinzas.»
Isto o que pretendia: tive de me libertar da poesia, e lutar pela prosa, mas querendo que este livro guardasse toda a envolvência do mistério que é um livro a gravar-se na vida de alguém. tem alguns excessos de poesia, algum magma metafórico excessivo, mas que procurava que fosse o impacto de um livro a escrever-se na terra interior do leitor. E aí o que eu desejava agora que os leitores pudessem dizer sobre este livro – de novo Teixeira-Gomes:
«Um estilo que arde fàcilmente, mas embalsama, deixando na memória um resídio de perfumes muito activos, que não permitem esquecer o que ele diz.»

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