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Mensagens

A mostrar mensagens de Dezembro, 2009

O futuro é o trabalho do presente

Acaba o ano, sucessão de folhas mortas, caminho de luzes baixas, com futuros inesperados. O futuro é o trabalho do presente. Alguém tem de cuidar do futuro, ou o passado morre.
O fim do ano deixa-me sempre nesta espécie de corredor, a Terceira Sinfonia de Sibelius, o fim tocado pelo princípio.
Por isso leio, cada ano no fim, este poema das Odes de Rumi (Livro de Mesnavi), poeta persa do século XIII, de cultura sufi. Cá segue uma tradução pessoal, com falhas, mas saboreada, com votos de um ano novo.

Somos como a flauta, e a música em nós é tua; somos como a montanha e o eco em nós é teu. Somos como as peças do xadrez envolvidas em vitória e derrota: a nossa vitória e derrota é tua, Ó tu, de saborosas qualidades;

Quem somos nós, ó tu, alma das nossas almas, que persistimos em ser longe de ti? Nós e as nossas vidas somos verdadeiramente não vidas; mas tu, ser absoluto, revelas o perecível.
Todos nós somos leões, mas leões numa bandeira: pelo vento que eles impelem para diante momento a momento. A sua…

A Igreja Católica e o casamento gay, II

Volto a responder a José Miguel, que teve a simpatia de comentar o meu post anterior e de partilhar comigo e connosco a sua opinião. É precisamente este tipo de debate que faz falta no interior da Igreja e no nosso próprio país. Respondo pessoalmente, pedindo licença aos leitores do blogue por mais uma carta pública.
A sua resposta incide em três pontos: Verdade, Identidade e Igualdade. Refere que temos noções muito diferentes. Eu penso que é claríssimo que têm a mesma raiz mas – mais do que concepções – têm resultados diferentes. Sabemos o resultado de algumas dessas concepções. Acredito que o processo dos seres humanos é para o crescimento, a liberdade maior, para o «crescei e multiplicai-vos» que o Génesis metaforicamente aponta como destino. A libertação de seres possuídos, demoníacos, no Evangelho é naturalmente a representação de problemas psíquicos, mas tem também um significado metafórico: representa igualmente seres tolhidos na sua vontade e pensamento. É porque Cristo consid…

comentário a um comentário ao post anterior

Faço este post em resposta a um comentário aqui colocado ao post anterior, "A Igreja Católica e o casamento gay, I". O "II" seria para me deter um pouco mais precisamente no significado da expressão "casamento gay", mas pelos vistos não tive tempo. As reacções vieram cedo demais. Agradeço todas. E por isso mesmo aqui segue em forma de resposta em carta aberta, a todas mas em particular a José Miguel que teve a delicadeza de ler a minha opinião e responder, o que desde já agradeço.
Um dos pontos da sua resposta dizia, e cito: «A união homem/mulher é anterior ao cristianismo: está presente na ordem natural do ser humano, onde identidade feminina e masculina são diferentes e convocadas uma para a outra. Na sua união resplandecem na sua identidade e complementaridade.»
Sublinho as palavras «ordem natural». O meu texto não incidia directamente sobre o casamento gay, nem mais precisamente na minha opinião sobre até se concordaria com a expressão, mas apenas com o…

OS MELHORES CDS DE 2009 OU PRESENTES DE NATAL

Alguns simpáticos leitores do blogue mandaram-me mensagens perguntando quais foram os discos de música clássica de 2009 que mais gostei; e que poderiam ser bons presentes para oferecer. Achei a proposta fascinosa para quem é crítico nenhum de música clássica, mas apenas um amante com uma inflamação prolongada.
Cá seguem as propostas, sublinhadas apenas pelo gosto.

Haydn: Quartetos para cordas Op. 20 nº 5, op. 33 «O Pássaro», op. 76 nº5 Quarteto Jerusalem Harmonia Mundi

Perfeição de som, perfeição de entoação, perfeição entre o respeito da letra e a leitura lírica. Estes quartetos assim tocados cantam porque é que Haydn é o pai do Quarteto. O «Pássaro» levanta voo, canta, e fala de manhãs impossíveis de morrer mesmo que o corpo deixe o corpo.
Música das manhãs de Sábado quando a luz do possível reveste tudo de infinito.


Vivaldi: Concertos para dois violinos Guiliano Carmignola, Viktoria Mullova Venice Baroque Orchestra, Andrea Marcon Deutsche Grammophon

O mundo é possível depois deste disco: a v…

A Igreja Católica e o casamento gay, I

Fui informado por vários amigos em diferentes zonas do país de um acontecimento ominoso: à saída de várias missas estão pessoas, católicos, a recolher assinaturas contra o casamento homossexual. Pior que isso, muitas vezes os párocos em plena missa avisam para a sua presença e invectivam os presentes a assinar essas folhas.
Sou profundamente católico. E por isso mesmo, este acontecimento - esta sequência combinada de acontecimentos, esta campanha, que só pode estar a ser orquestrada com a anuência de alguns movimentos religiosos e figuras importantes da hierarquia católica - enche-me da mais rigorosa indignação.
A Igreja Católica foi desde a queda do Império Romano dominada por uma facção que a procurou controlar, suprimindo todas as outras correntes de pensamento; uma facção ortodoxamente dirigista nos costumes, cega no diálogo interreligioso, violenta na supressão de outras correntes. Serviu-se sempre da sua proximidade com o dinheiro e de uma máscara de uma certa perfeição de rigor d…

333 e Teixeira-Gomes

Aqui cito excerto de um texto que li na Biblioteca Manuel Teixeira-Gomes de Portimão, numa sessão sobre 333, em que tive ocasião de agradecer a marca profunda que o escritor algarvio gravou em mim - neste ano em que começamos a celebrar os 150 anos do seu nascimento.

os livros são casas. são casas no silêncio. e como todas as casas, têm de existir sobre uma terra que os sustente. se há uma terra para a poesia que escrevi, é o Algarve. devo começar por dizer que vou fazer um itinerário de afectos, um percurso interior com marcas, curvas e contracurvas. mas que ainda antes de começar quero agradecer a oportunidade de estar aqui convosco, e esta, de fazer este percurso – que como todas as construções, só faz sentido se fôr partilhada, visitada.
foi neste Algarve que os meus pais se conheceram, foi neste Algarve que fui gerado, foi neste Algarve, que ainda conheci rural e menos urbanístico, em que morri pela primeira vez. eu devia ter menos de dois anos quando, junto dos meus irmãos e dos m…