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JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

Duplo Concerto

esta é a história do amor de um homem.
de como começa a formar-se a partir de um fantasma; como consegue reconhecer-se o seu peso de impossível a formar os seus ossos futuros. as junturas do amor, sempre feitas de eternidades cortadas.
podes subir, de todos os abismos: podes subir. música que vens do mais longe de mim mesmo, do ponto em que nunca fui, do corpo onde nunca serei. podes chegar, podes chegar. mas não podes passar. sou um violoncelo atirado das escarpas de jamais para rasgar o seu canto no último momento do tempo. eu canto uma janela, ferida de chuva por todos os lad
os. podes subir, acordes de um violino que vem de tão perto que podia ser eu.

12 de Novembro de 1997: esta música soa pela primeira vez na minha vida, e eu não posso ouvi-la porque sou eu. não a posso deixar prosseguir, passar, porque em cada acorde eu estou nu perante o universo inteiro. Brahms roubou-me cada segundo da respiração deste planeta: sou eu, há um momento vivo, morto ou ressuscitado em cada acorde, sou eu. o violoncelo que no primeiro andamento se mistura com o violino, sou eu a esperar o amor do amor. como é isto possível, que é tão mais real que esta pergunta. que é uma espécie de carne mais definitiva que o meu corpo.
a orquestra é o mundo, o que separa dois seres. o que me diz que o amor do amor, o amor que eu procuro ser, que eu sou em busca, nunca existe. é dessa fome que me alimento.
e acaba definitiva, por mais fusões que o violoncelo misture com o violino, por mais impossíveis superados, cortados, por mais momentos mais vivos que o cosmos. isto é a minha carne interior, este sou eu.
é a história de como um homem pode amar o amor e nunca o pode fazer. como se pode levantar todos os dias com o coração em todos os países do peito, e isso ser mais real do que existir.
mas posso sonhar no segundo andamento que isto seja possível. é demasiado irreal e por isso pode acontecer. o coração deflagra na possibilidade.
não passes: saber que existes é o único real possível. podes descer, música, do abismo onde vivemos. quando nos tocamos, faz luz em toda a morte.
o último andamento é irónico, mordaz, os gestos do depois. a morte no mundo: o banal, o esquecimento, o querer perder a pele.

Heifetz, Piatigorsky, Reiner: toda a rapidez excessiva desta música, o seu furor, a sua concentração anti-sentimental. A orquestra é real, peremptória, rápida, e os dois grandes Heifetz e Piatigorsky são líricos mas quase em contraciclo com a orquestra. Não há separações, há uma perfeição sobre a dor.
Furtwängler interessa por causa de Furtwängler: é a orquestra que surge quase directamente de Wagner e do destino a rasurar toda a obra. Terrível, mas não para primeira audição.
Mas a descoberta, a devastação, um jogo de fusões e fugas, está com Oistrakh e Rostropovich regidos por Szell. O maestro preciso e contraído dá lugar a um lírico agressivo, destruidor. Impossível de sair desta gravação inteiro.
é a história de como um homem pode amar o amor e nunca o pode fazer








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