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JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

Schubert, só depois dos trinta

Discutia há dias com um amigo, melómano mas não tão chato como eu, que Schubert era uma doença que só aparecia depois dos trinta. Ele também concorda: tem a ver com a compreensão de ritmos interiores, disse-me.
Schubert morreu aos trinta e um. Isso é irrevogável e não sei se alguma vez o mundo recuperará inteiramente disso (cito Piotr Anderszewski sobre Mozart).
De facto sempre ouvi Schubert. Mas não saía da trindade habitual, a Sonata D. 960, de que já falámos aqui nos “Jardins para o fim dos tempos”, as duas últimas Sinfonias, o Quarteto “A Morte e a Donzela”. E o resto era música, excelente, mas não rasgava os ouvidos do coração.
E subitamente, os trinta anos, e com eles as sonatas para piano por Richter. Aqueles tempos lentíssimos, de respirações longas, que se prolongam por praias suspensas, congeladas. Uma dor minuciosamente analisada, minuciosamente alargada.
Esta música não encena, não teatraliza, não arde para fora. É preciso estar perdido dentro de si mesmo para ser capturado por ela. Como os trinta: sabemos tudo o que foi para trás, sabemos muito provavelmente o que virá para a frente. Quando se sabe o caminho, aí é que tudo se perde, porque se pode derrapar por dentro. A infância reaparece, em outros (os filhos) ou em nós mesmos, porque a morte começa a dizer ao corpo – como diz o António Alvélos – que um dia vai chegar. É esta música do limite, este risco de som sobre o precipício: Schubert.
Ouvir “Gutte Nacht” de Winterreise (sobretudo por Hans Hotter, 1943): percebe-se como aos trinta se despede de tantas ilusões crescidas: essas que sabemos impossíveis mas que deixamos desenvolverem-se, e que caem desaparecidamente.
Ou o Andante do Trio Op. 100, a marcha fúnebre dos próprios sentimentos assassinados.
Ou o Quinteto para Cordas, pelo Hollywood String Quartet, e desejar que houvesse outro lugar para a alma mais fundo que o corpo.
Ou as últimas três Sonatas por Richter, as transcrições das canções por Sofronitsky ou Kissin, a Fantasia para Dois Pianos, os Impromptus - e perceber que Schubert verdadeiramente não é música, mas o movimento interior de um corpo a romper o mundo.
PS - Na imagem um Schubert mais novo, para não usar a mesma estafada e gorda representação de sempre.

Comentários

mariajoni disse…
O que acontece aos trinta? Percebe-se que meia vida já passou por nós, e ainda temos mais dois terços a dobrar dessa vida pra viver? Guardamos as memórias e vêmo-las reflectidas (nos filhos, mesmo naqueles que ainda não temos), sentimos que reviver não é ainda para nós, ainda não é esse o tempo. Mas é já o tempo de sentirmos cristalinamente a alma que vagueia dentro de nós, que sentimos correr nas veias quando ouvimos uma música? Para nos lembrar que afinal o tempo, ou o corpo, são quem mandam em nós...
Mas então e se vivermos tudo isto antes dos trinta? E se percebermos que esta alma existe, mexe, se transforma, puxa e repele-nos para uma vida fugaz, para pensamentos que sabemos que não se vão concretizar, e o dia a dia mostra-nos o que fomos incapazes de sonhar, mas está ali. Ali. E os sonhos vão-se transformando, as ilusões vão aumentando, quando pensamos que desapareciam. E nestas pausas para a vida, respiramos um toque de dedos num piano, uma nota solta que se prende a nós com tal dor impregnada que apenas com ela voamos para outrora! Ou projectamo-nos? Vemos ali um fio de esperança, de saudade, ou de eternidade? E o movimento prossegue, melancólico e soturno, mas não é apenas melancólico e soturno, é muito mais, segue além da alma, estende-nos fora do corpo e aí percebemos: ter trinta anos não é mais do que saber saborear a vida.
VIDA! Com toda a sua expansão, silêncios prolongados, momentos que não queremos explicar, apenas sentir, saborear na verdadeira acepção da palavra. Saborear como quem cheira uma flor inspirando profundamente, de olhos fechados, saborear como quem degusta algo com a boca toda, impregnada de sabor, textura, paladar recheado que nos enche a saliva de prazer... ter trinta anos é isso. É olhar as coisas, as pessoas, nós mesmos, com todo o nosso recheio e espólio de vida, e sabermos que por muito que olhemos, algo novo surgirá dali, sem sabermos como nem porquê. A magia da vida. É isso apreciar Schubert no seu Impromptu in G Flat major D899 n. 3?
Não sei. Só saberei quando chegar aos trinta e ouvir essa música de novo...

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