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Mensagens

A mostrar mensagens de Novembro, 2009

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

Duplo Concerto

esta é a história do amor de um homem.
de como começa a formar-se a partir de um fantasma; como consegue reconhecer-se o seu peso de impossível a formar os seus ossos futuros. as junturas do amor, sempre feitas de eternidades cortadas.
podes subir, de todos os abismos: podes subir. música que vens do mais longe de mim mesmo, do ponto em que nunca fui, do corpo onde nunca serei. podes chegar, podes chegar. mas não podes passar. sou um violoncelo atirado das escarpas de jamais para rasgar o seu canto no último momento do tempo. eu canto uma janela, ferida de chuva por todos os lad
os. podes subir, acordes de um violino que vem de tão perto que podia ser eu.

12 de Novembro de 1997: esta música soa pela primeira vez na minha vida, e eu não posso ouvi-la porque sou eu. não a posso deixar prosseguir, passar, porque em cada acorde eu estou nu perante o universo inteiro. Brahms roubou-me cada segundo da respiração deste planeta: sou eu, há um momento vivo, morto ou ressuscitado em …

o temporal levou minha janela

Estive longe por causa das vindimas, mas aqui volto.
Dias atrás, uma ventada levou minha janela. Não era janela de casa, era de uma pequena casa no fim da propriedade, casa só de arrumações. Ali minha adolescência de livros e proibições cresceu por trepadeiras.
Vou lá pouco, hoje, a casa vai caindo. De vez em quando dou um jeito nela, mas a casa foi caindo porque a minha adolescência foi partindo. Sei que sente a falta de um rapaz que crescia nos seus muros para atingir o céu. Na virada do milénio, não estava eu na quinta, me disseram que quase caiu. Pois há dias, uma ventada grande levou minha janela. Era de madeira branca. Eu freqüentemente olhava por ela para ver se não vinha ninguém. Ela caiu: eu já não espero ver ninguém me procurando quando eu faço o caminho para o futuro.

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

Schubert, só depois dos trinta

Discutia há dias com um amigo, melómano mas não tão chato como eu, que Schubert era uma doença que só aparecia depois dos trinta. Ele também concorda: tem a ver com a compreensão de ritmos interiores, disse-me.
Schubert morreu aos trinta e um. Isso é irrevogável e não sei se alguma vez o mundo recuperará inteiramente disso (cito Piotr Anderszewski sobre Mozart).
De facto sempre ouvi Schubert. Mas não saía da trindade habitual, a Sonata D. 960, de que já falámos aqui nos “Jardins para o fim dos tempos”, as duas últimas Sinfonias, o Quarteto “A Morte e a Donzela”. E o resto era música, excelente, mas não rasgava os ouvidos do coração.
E subitamente, os trinta anos, e com eles as sonatas para piano por Richter. Aqueles tempos lentíssimos, de respirações longas, que se prolongam por praias suspensas, congeladas. Uma dor minuciosamente analisada, minuciosamente alargada.
Esta música não encena, não teatraliza, não arde para fora. É preciso estar perdido dentro de…

A CARA EM FÉRIAS INTERIORES

Pois ficámos a saber que a Cara tinha sabido do caso TVI numa destas chamadas que só os supremos tribunais lêem [é tudo tão fascinoso hoje em dia que o que se escuta lê! Ó tempos virtuais em que as pitonisas vêm por escutas tribunais!]. Isto quando disse no Parlamento que nunca tinha sabido do referido caso, da compra da TVI pela PT. Agora soube "através de amigos". E eu pergunto a cada um dos cinco leitores deste blogue: se soubessem de um caso grave que punha em causa o equilíbrio de forças deste país, de um caso de concentração estratégica que punha em causa o são equilíbrio de poderes, se soubessem informalmente de uma coisa, como responsáveis máximos de um Governo, não pediriam informações? Não impediriam tal coisa? Quanto mais não fosse, para evitar futuras acusações contra si mesmo? Não: a Cara só governa em férias. Ficámos a saber que há uma separação entre o líder ao telefone e o líder no Parlamento. Que umas coisas preocupam a Cara oficialmente e que outras nem por i…

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

Análise do Fogo: Tchaikovsky: Concerto para Piano e Orquestra Nº 1

tudo existe desde sempre: convive connosco, mas só é verdadeiramente para nós quando nos acontece. perco noites inteiras a pensar no magma inumerável de coisas que conheço mas que ainda não conheço, porque só vão ser para mim quando me acontecerem. tudo ocupa a sua órbita até desorbitar em nós.
assim com este concerto, que na minha primeira fase de amor à música achava longo, pesado, cheio de interrupções pensativas, quando eu queria da música exclamações, irrupções, a subjugação de uma paixão.
até ao dia de Outubro de 2004 em que me aconteceu a versão de Vladimir Horowitz com o Arturo Toscanini. Em 1943, num evento para recolha de fundos para o esforço da segunda guerra mundial, pianista e o seu sogro maestro gravaram o caminho mais próximo entre esta música e o fogo.

não é fácil chegar aos lugares interiores como se faz com os físicos: como chegar a uma pedra, a um quarto, a uma igreja, a uma praia, e dizer, «foi aqui»,…