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crónicas escritas em sede #4

o unicórnio

era uma noite longa, em que os dias também eram noite, porque tudo era escuro e misterioso, e se atravessava sem saber para onde.
sonha-se muito nestas travessias. talvez porque precisemos de ir buscar ao subconsciente água e chão.
num desses sonhos, eu atravessava uma paisagem clara, amarela, quente. havia um calor que se sentia na pele e que parecia subir. a cada passo eu sentia-me mais e mais protegido, por alguma coisa que estava no alto mas bem perto. as cores claras da paisagem, que me pareceram antes uma construção, eram afinal patas, enormes e redondas, e por cima não um tecto mas o corpo de um cavalo, enorme e imóvel, sábio de estátua.
avancei por debaixo desta construção real, carne de sonho. percebi-lhe os contornos gigantescos, mas a cada golpe de realidade o cavalo me parecia mais próximo e reconfortante: cada parte dele construía-me mais seguro na alma.
quando lhe procuro o rosto, redondo e largo como nas estátuas, não lhe vejo os olhos, mas ele sabe que eu estou a olhá-lo; e movendo ligeiramente a cabeça das nuvens, consigo ver que é um unicórnio, o seu corno azulado a começar na testa e a perder-se de vista através das nuvens.
foi o sonho mais bonito que alguma vez tive na vida. não pelas imagens, mas pelos efeitos. a partir daí foi claro para mim que vamos ao sonho beber água.

Comentários

Marta disse…
Boa tarde Pedro Sena-Lino.

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