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Mensagens

A mostrar mensagens de Outubro, 2009

crónicas escritas em sede #4

o unicórnio

era uma noite longa, em que os dias também eram noite, porque tudo era escuro e misterioso, e se atravessava sem saber para onde. sonha-se muito nestas travessias. talvez porque precisemos de ir buscar ao subconsciente água e chão. num desses sonhos, eu atravessava uma paisagem clara, amarela, quente. havia um calor que se sentia na pele e que parecia subir. a cada passo eu sentia-me mais e mais protegido, por alguma coisa que estava no alto mas bem perto. as cores claras da paisagem, que me pareceram antes uma construção, eram afinal patas, enormes e redondas, e por cima não um tecto mas o corpo de um cavalo, enorme e imóvel, sábio de estátua. avancei por debaixo desta construção real, carne de sonho. percebi-lhe os contornos gigantescos, mas a cada golpe de realidade o cavalo me parecia mais próximo e reconfortante: cada parte dele construía-me mais seguro na alma. quando lhe procuro o rosto, redondo e largo como nas estátuas, não lhe vejo os olhos, mas ele sabe que eu estou…

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS: MILHAUD

MILHAUD


Um disco numa tarde de 1997. Eu reinventava-me, deixava uma vida para nascer outra. Aquela sensação de o espaço se inventar a cada gesto quando tudo recomeça. E aquele disco: Milhaud, da série «Composers in Person». Uma mistura de jazz com ritmos brasileiros, os ritmos medievais e regionais provençais numa orquestra modernista de jazz band. A invenção permanente.

Darius Milhaud nasceu em 1892 em Marselha. Foi para o Brasil como secretário de Paul Claudel, depois Suíça, depois Estados Unidos em prelúdio e fuga do nazismo. É um dos segredos mais bem guardados da música do século XX. Compôs infinitamente, porque dizia querer ter sempre uma coisa nova para cada dia.
Não ouço outra coisa: há um manancial de sinfonias, concertos para piano, música para teatro, quartetos de cordas. Mas ninguém fica indiferente a Le Boeuf sur le Toit, grande divertimento politonal com Brasil e saxofones a levantarem a orquestra. Há uma excelente versão com o compositor a dirigir (na dita colecção da EMI…

crónicas escritas em sede #3

a vida chega sem avisar

mais frequentemente do que a morte. sinto mesmo com o entendimento que as chegadas da vida são a educação para a morte. o cenário de esperar: o ruído lá fora, da chegada, e a janela de esperar ocupa o espaço do coração. mas isso é o habitual, a rotina das chegadas. eu falo de quando a vida chega imprevista e em chamas, um incêndio conjuntivo. aí o ruído lá fora, a janela, não é isso nós ou eu - nós ou eu somos a chegada. as grandes fases da vida são feitas deste estilhaço. de quando a infância acaba porque acabou o esperar. da adolescência quando não esperar se torna fazer. da adultez quando a vida chegar e desfazer é a sua própria essência. pode arder um cigarro, podem arder as memórias: o coração é a única coisa inteira do corpo, porque se parte no invisível.

crónicas escritas em sede #2

O CÉU DO CHÃO

desde pequeno que achava que havia um céu para cada chão. como nas casas, quando o tecto é sempre o tecto para uma sala, e só é tecto para essa sala. o tecto ideal para o mar é o céu azul, porque até se o mar está escuro, o céu também se escurece. é uma relação perfeita em que um é os olhos do outro. os mestres espirituais sublinham sempre que o nosso estado de espírito interior é o mais perfeito estado de espírito que temos - é nele que temos de encontrar a nossa perfeição. é o tecto que tem de desenhar o nosso chão, onde temos de pôr os pés do real, onde temos de inventar um corpo suficiente para os dias. mas quando não conheço nem o céu nem o chão; quando, como se num sonho, tudo se reinventa à velocidade do coração: que chão, que tecto, que música de corpo sobreviver?

o coração com as raízes iluminadas

Ontem passei o dia na Quinta arrancando erva. Há pessoas que arrumam armários, outros que vão ao cinema, quando querem arrumar sua cabeça. Eu arranco ervas na quinta. Quando aprendi Português, gostavava muito do poema de Alvaro de Campos que era: «Fui como ervas e não me arrancaram.» O meu coração está quase sendo arrancado. Vocês não sentiram isso quando uma pessoa se apaixona? Só que quando as raízes sairem, até elas estão iluminadas. O amor chegou mais fundo. Mesmo quando uma árvore está morrendo, a linfa quer chegar a toda a planta.