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NOTAS SOBRE AS ELEIÇÕES

O país vai a votos, e não se devia falar de outra coisa. Mas ainda há o sol, a gripe A, e milhares de outras coisas tão mais interessantes que isso. Não deixo de poder partilhar algumas notas sobre esta pré ou quase campanha que tem sido invulgarmente esclarecedora.
1. os debates
Não me lembro de nunca ter havido destes debates, tão igualitários entre líderes. De facto, para esclarecer ideias, não poderia haver melhor. E corrigem a imagem de trauliteirice que o Parlamento tem dado. Nem em Itália com o sr Berlusconi se ouvem coisas como - só de repescar este ano - se ouviram. Nos debates (como no excelente entre Portas e Jerónimo, ou no de hoje, entre Sócrates e Louçã) ficam tão claras as diferenças. Mostra uma vontade de esclarecer, trabalho sério dos candidatos, e falta de temor em ver todos os ângulos.
A senhora portou-se bem, embora muitas palavras caiam ao lado do que quer dizer, mas a atitude mostra mais do que a cabeça de cartaz que é para o partido - aliás, péssima. Manuela Ferreira Leite é a única candidata que não tem nada a perder com estes debates: todos sabem que é a que fala pior, que é a menos confrontativa, que é a menos tribuna de todos os outros, treinados por anos de Parlamento. Ganhará mesmo que roube uma loja, fazendo a analogia com uma frase de um jornal alemão ontem sobre Merkel.
Jerónimo também tem pouco a perder: sabe que ganhará pouco eleitorado, e que deve fixar-se na sua imagem e nos votos dos seus. Tudo se passa, portanto, no triângulo Portas-Louçã-Sócrates.
O debate de hoje, Sócrates-Louçã, vai ser decerto recordado com um dos debates mais memoráveis da democracia portuguesa. Sócrates foi baixo, com o programinha do adversário sublinhado e as reviravoltas de sentido que o caracterizam. Empola questões secundárias como se fossem cruzadas, e com tal sublinhamento, que é impossível a um adversário ficar frio. Louçã não se saiu mal, mas as questões das nacionalizações são tão embuscadas como a família-só-para-procriação da senhora. Louçã terá perdido votos neste dia, mas não para Sócrates. Os eleitores do BE que votam nele como força de protesto procurarão outras paragens. Eu, que votei BE ao longo de muito tempo, não me revejo no conflito e no discurso passados estes anos. Mas reconheço que melhor oposição que o triângulo Portas-Louçã-Jerónimo não há. Foram eles, com Moura Guedes, os morde-canelas de uma maioria absoluta desastrosa, faraónica, caterpillar e inútil.
2. o que está em causa
Mesmo com os debates, não se percebe o que cada um quer fazer com a crise. Fala-se das PME mas não se vê nada. Uma amiga, que dirige uma PME, contou-me há dias que ganhou um desses apoios mas precisava de gastar grande parte do apoio em comprar material: ora o problema é de tesouraria, não de material. Estes apoios são fechados, não têm em conta as necessidades reais das pessoas. O crédito é outro problema mal resolvido, ainda para mais com tantos apoios dados aos bancos. Tudo está fora da crise, como um senhor medieval que não vê as receitas chegar, e por isso manda prender os seus servos da gleba. Medieval, no pior: é isto a resposta do Governo à crise.
O apoio às indústrias culturais, que A Cara admitiu ser uma das suas falhas, está fora dos programas. Alguns editores contaram-me que este ano tiveram vendas, em dias determinados, na feira do livro, verdadeiramente espantosas. Isso quer dizer que as pessoas, em momentos de crise, perdem os hábitos de consumir-para-ver (telemóveis, carros de luxo, e por aí fora) e investem num livro, num filme, numa peça de teatro, num disco. Estas iniciativas, e outras de proximidade, devem ser apoiadas: geram bem-estar e consumo. Cada euro investido na cultura multiplica-se por dois ou por três. Ninguém percebe isto, ninguém fala disto. Por isso seremos sempre um dos países do mundo com uma das melhores e mais antigas literaturas, com agentes culturais esforçados e criativos, que vivem na míngua e voltados de costas para o país: porque não os apoiam, porque não os deixam gerar cultura e com isso, progresso.
3. o que poderá acontecer
Já disse aqui: BE e PCP não se quererão coligar ao PS, porque sabem, à maneira italiana e francesa, que isso será um suicídio. Ensaiarão e bem uma coligação muito particular e com as devidas mesuras na candidatura de Alegre à presidência, que ganhará decerto, sobretudo se o PSD ganhar estas eleições.
Se Sócrates perdeu já as eleições com o caso TVI, Manuela apagou muitas das suas hipóteses com as listas para deputados e a ida à Madeira (não custava nada ter dito uma frase, só uma frase, em vez de tantas desnecessárias...).
Manuela ganhará provavelmente por uma unha negra. Terão reparado na sondagem saída ontem no CM que colocava PS à frente: sondagem feita antes do caso Jornal de Sexta-Moura Guedes (faz lembrar as sondagens na noite das eleições europeias; o PS perdeu e as sondagens, feitas antes das eleições, davam-lhes a vitória...). Se tem Portas ou não, veremos. Mas o mais provável é uma eleição para dois anos, debilitada no Parlamento e por severa oposição interna.
Os executivos minoritários têm história agradável neste país. Uma maioria absoluta é uma poltrona com uma bananeira. Veremos se desta vez há maturidade para fazer o país progredir nas coisas essenciais para todos: investir todos os fundos possíveis na agricultura, e programá-la bem; criar boas ligações regionais de turismo, ligando hotelaria, restauração, autarquias, indústrias criativas, empresas de transportes; apoiar indústrias culturais regionalmente; aumentar os subsídios de desemprego;adiar remessas de IRC um pouco mais e emprestar às PME; criar um bom fundo de apoio a empresas em risco, subsidiando parte dos funcionários em risco, mas empenhando gestores (há tantos boys e girls que podiam ir fazer de missi dominici, como inventou Carlos Magno, enviados do senhor, como enviados do Estado para acompanhar a gestão). E sobretudo investir, não em estradas e disparates, mas no que o país faz melhor: na dinâmica de sobrevivência das pequenas coisas que nos fez fazer naus e descobrir caminhos quando nada se esperava.
Para além disto, a grande esperança: que esta gente, habituada agora a sentar-se em conjunto com estes debates, pense em dois ou três objectivos precisos para o país, e se ponha de acordo em consegui-los. Mas isso será mais difícil que voltar D. Sebastião.

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