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NÃO HÁ CENÁRIOS, HÁ OBRIGAÇÕES

No rescaldo das eleições, por mais tinta que corra, uma verdade é absoluta: o povo é sábio. Eu gostaria que o PS perdesse, ou tivesse ao menos uma maioria mais curta, mas o cenário é melhor do que parece à primeira vista. Ora vejamos:
1. É notório que o país quis que o PS continuasse a governar. Sete por cento de diferença é uma maioria assumida. Mas que quer que governe sem maioria absoluta e sendo capaz de dialogar. E vão logo dar esse presente ao primeiro-ministro menos dialogante desde João Franco. O PS embandeirou em arco e ainda não percebeu o que se passou. O primeiro-ministro sim: aquela cara era metade da cara das europeias, com metade da cara de satisfação. Agora teremos os dois rostos. E daqui é claro: ou o PS entende que está na sua mão saber gerar consensos, ou então pode bem esperar-lhe, daqui a dois anos, em novas eleições, uma maioria muito mais curta e consensos bem mais autofágicos.
2. É óbvio que a esquerda ganhou em toda a linha. E que o país quer ser governado à esquerda. E isso implica claramente que o PS encontre dentro de si próprio a esquerda que perdeu. Esta espécie de ente giga-joga que nos governou por quatro anos e meio já não serve, ora à pouca esquerda, ora à clara direita. E descobrir a esquerda dentro de si é uma coisa que o PS tentou com Ferro Rodrigues e não conseguiu.
3. Espanta-me e dói-me, a uma primeira impressão, a reconciliação da linha clara de esquerda dentro do PS com a linha de Sócrates: a ida de Alegre ao comício em Coimbra, a coligação Roseta-Costa. Se compreendo (como adepto entusiasta da arquitecta) a segunda, custa-me perceber a primeira. A menos que Alegre tenha uma estratégia clara, que nem sequer passa por equacionar presidenciais para já: dar o apoio ao PS, e levar com ele muitos dos "seus" votos, implica obrigar o PS-maioria curta a virar à esquerda. E se este é o caso, esperam-nos muitas discussões no parlamento e no interior do partido. Vai ser uma lavagem intestinal.
4. É também óbvio que Bloco e CDU devem manter os seus programas, e não ceder ao PS. Jerónimo tinha razão quando afirmava ontem que o PS fez isto a si mesmo. Mas quem neles votou também espera uma capacidade de gerar consensos que revela a maturidade da democracia.
5. A senhora: uma pena. Merecia mais uns pontos, não pela sua terrível agenda social, mas pela seriedade. Não se premeia a seriedade e a experiência neste país, e a votação comprova-o. O sucesso do CDS poderá implicar que o PSD se rearrume e se reencontre. Tem sido uma coligação de social-democratas (muito poucos) com populistas (crescente) e liberais-conservadores. Nestes dois anos tem de encontrar a sua matriz, ou corre o risco de ser substituído como partido de alternativa ao governo.
Ou não: se o jogo de dividir os votos tornar os partidos responsáveis, todos serão responsáveis por soluções de governo. E isso é uma excelente notícia.
6. O mapa político está interessante, e mais, está a caminho da adultez. Temos um parlamento habituado a não funcionar por maiorias absolutas, uma negação dele mesmo. Agora consensos, ainda para mais sem coligações, ensinarão muito. Vamos ver se os actores estão capazes. Não sei se os partidos perceberão que o país os quer ver a trabalhar decentemente, a assumir responsabilidades.
Agora já não há cenários, há obrigações.

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