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crónicas escritas em sede #1


O escultor de água


compreendo hoje que quem esculpe a pedra o fez primeiro em água. já o tinha visto em Rodin, todas aquelas fadas líquidas, e corpos misturados que tiram água um do outro numa sede alta, ardente, de pedra em incêndio. vejo-o com a nitidez dos materiais, da pedra que precisa de conter e secar em si mesma a água, para guardar o que corre no que é imóvel.


assim também o amor procura o deserto antes de se dar, quer correr imóvel dentro do ser que deseja, para criar o amor do outro.


havia na minha infância uma montanha enorme, ao pé de minha casa. subia-a como se fosse o Kilimanjaro, e chegava lá acima esperando ver o topo daquele pequeno mundo. era a subida das pedras que afinal importava, porque a altura das coisas só se vê de dentro.

hoje passo pela montanha, um monte ridículo de pedras, mas agradeço-lhe a aprendizagem.


assim também o amor, de que importa só subir a sede.

Comentários

Ana Paula Mata disse…
Pedro,
Às palavras que brotam de ti como água abençoada, um sorriso iluminado.
Que fico sempre refém delas, como gota, apaixonada pela chuva.
Obrigada pelo momento.
APM

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