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CRÓNICA DE UM PAÍS PARTIDO

Eu vivo num dos países mais antigos da Europa. Um país que teve de conquistar o seu espaço geográfico durante duzentos anos, e procurou outros pelo mar durante outras centenas de anos. Que viveu numa ditadura durante dezenas de anos, e fez progressos acelerados durante trinta. Um país com uma das maiores literaturas do mundo, e uma das paisagens mais ricas e contrastantes.

Mas eu vivo num dos países mais perdidos do mundo. Um país que tem um Presidente e um Governo que se suspeitam, que tem um parlamento que não funciona - e por isso precisa das maiorias absolutas como uma negação que o legitima; que tem Governos que vivem contra a cultura , e chegam antes das eleições a pedir desculpa, não sabendo que é ao próprio povo a quem essa ausência de trabalho cultural faz falta a cada segundo. Um país que tem o complexo de se achar no primeiro mundo, mas vive com as regras do terceiro. Um país onde a democracia é barulho, e um obstáculo para os poderosos chegarem a monopólios. Um país que não funciona, porque não sabe quem é. E porque quem o dirige só se ocupa em desfazê-lo para os seus fins. Portugal é o velho que estava no lar, a quem a família levou para casa para ficar com o dinheiro da reforma; é o país habituado à Índia e ao Brasil, querendo ter sem fazer; é um rectângulo no espaço, inchado de expectativas.



Nestes quatro anos e meio, o país partiu-se: suspeitas entre os órgãos de soberania, que nem em pleno prec chegaram a este ponto; desigualdades e ódios sociais entre quem recebe rendimentos, quem trabalha explorado, quem explora os outros; uma oligarquia de empresas apoiada pelo Governo, programada para gerir os seus interesses no país para as próximas décadas; subsídios para uma agricultura definhante que não são utilizados; e Conventos de Mafra, dezenas deles, em terceiras travessias do Tejo, TGVs, auto-estradas gémeas, trigémias, pentagémeas, computadores para todos os meninos que nunca lerão um Soneto de Camões, Aeroportos. Um país perfeito para pista de aterragem, onde não há nada senão boas estruturas para sermos alugados, emprestados, comprados. Um país partido, que passou quatro anos a difamar a classe que constrói o país, os professores, obrigados ainda para mais a serem co-pais por ordem dos reais e do Estado; um país partido, com um governo com licenciaturas falsas ou doutoramentos duvidosos; um país-tecnologicozinho, silenciado por gadgets, com polícia nos sindicatos (a rosa esmagada pelo punho tecnológico). Um país que teve quatro anos de estabilidade, com a sua população mentalizada e preparada para as mudanças necessárias, e em que pouco ou nada se fez, e em que instaurou um autoritarismo sem discussão.

Um país partido que se prepara para eleger os mesmos, para a estocada final.


Uma das maiores tristezas da minha vida é ser da área política do PS e nunca ter podido votar nele. Vou votar em qualquer coisa que não seja PS ou que possa estar próximo dele, e exorto todos os leitores deste blogue que pensem muito bem no que pode estar em causa. Nunca senti o meu país tão partido, e tão prestes a partir-se.

Nunca vi o meu país tão partido, que me desse tanta tristeza de ser português.

Comentários

teresa maria disse…
Consegues mostrar o que muitos sentem.
É triste ter de votar pela negativa.
Ainda tenho esperança nos jovens.

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