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Mensagens

A mostrar mensagens de Setembro, 2009

NÃO HÁ CENÁRIOS, HÁ OBRIGAÇÕES

No rescaldo das eleições, por mais tinta que corra, uma verdade é absoluta: o povo é sábio. Eu gostaria que o PS perdesse, ou tivesse ao menos uma maioria mais curta, mas o cenário é melhor do que parece à primeira vista. Ora vejamos: 1. É notório que o país quis que o PS continuasse a governar. Sete por cento de diferença é uma maioria assumida. Mas que quer que governe sem maioria absoluta e sendo capaz de dialogar. E vão logo dar esse presente ao primeiro-ministro menos dialogante desde João Franco. O PS embandeirou em arco e ainda não percebeu o que se passou. O primeiro-ministro sim: aquela cara era metade da cara das europeias, com metade da cara de satisfação. Agora teremos os dois rostos. E daqui é claro: ou o PS entende que está na sua mão saber gerar consensos, ou então pode bem esperar-lhe, daqui a dois anos, em novas eleições, uma maioria muito mais curta e consensos bem mais autofágicos. 2. É óbvio que a esquerda ganhou em toda a linha. E que o país quer ser governado à esq…

crónicas escritas em sede #1

O escultor de água

compreendo hoje que quem esculpe a pedra o fez primeiro em água. já o tinha visto em Rodin, todas aquelas fadas líquidas, e corpos misturados que tiram água um do outro numa sede alta, ardente, de pedra em incêndio. vejo-o com a nitidez dos materiais, da pedra que precisa de conter e secar em si mesma a água, para guardar o que corre no que é imóvel.

assim também o amor procura o deserto antes de se dar, quer correr imóvel dentro do ser que deseja, para criar o amor do outro.

havia na minha infância uma montanha enorme, ao pé de minha casa. subia-a como se fosse o Kilimanjaro, e chegava lá acima esperando ver o topo daquele pequeno mundo. era a subida das pedras que afinal importava, porque a altura das coisas só se vê de dentro.
hoje passo pela montanha, um monte ridículo de pedras, mas agradeço-lhe a aprendizagem.

assim também o amor, de que importa só subir a sede.

AS MINHAS PREVISÕES

Suspeito que as sondagens andam enganadas. Aqui vai a minha tese:

1. "Asfixia". Concorde-se ou não com a asfixia, creio que muitas pessoas dizem votar no PS, com as empresas de sondagens, por receio. Daí podemos tirar 5 a 6%, os mesmos que fazem a diferença com o resultado previsto nas europeias, e que perdeu. Acredito também que as pessoas estão cansadas do PS mas muito do cansaço não é ainda absoluto, e que muito deste voto é "não há melhor, deixa ver". Penso também que no dia das eleições, alguns dos que dizem votar PS ficarão em casa; foi sempre o partido menos beneficiado com a abstenção, reforçando-se com o facto de ser o partido no poder.
2. Conservadorismos. Votar PSD, com a postura conservadora de Ferreira Leite, pode ser para algumas pessoas dar de si próprios essa imagem. Mas os portugueses são mais conservadores do que parece - não querem é parecê-lo. Donde que acredito que muitos não terão dito que votam PSD para não quererem parecer conservadores. 2 a 3…

CRÓNICA DE UM PAÍS PARTIDO

Eu vivo num dos países mais antigos da Europa. Um país que teve de conquistar o seu espaço geográfico durante duzentos anos, e procurou outros pelo mar durante outras centenas de anos. Que viveu numa ditadura durante dezenas de anos, e fez progressos acelerados durante trinta. Um país com uma das maiores literaturas do mundo, e uma das paisagens mais ricas e contrastantes.
Mas eu vivo num dos países mais perdidos do mundo. Um país que tem um Presidente e um Governo que se suspeitam, que tem um parlamento que não funciona - e por isso precisa das maiorias absolutas como uma negação que o legitima; que tem Governos que vivem contra a cultura , e chegam antes das eleições a pedir desculpa, não sabendo que é ao próprio povo a quem essa ausência de trabalho cultural faz falta a cada segundo. Um país que tem o complexo de se achar no primeiro mundo, mas vive com as regras do terceiro. Um país onde a democracia é barulho, e um obstáculo para os poderosos chegarem a monopólios. Um país que não…

O PAÍS AO CONTRÁRIO

Estou de luto: o meu país está doido.

Alguma vez se concebeu a polémica que atravessa o país hoje? O que é isto, em qualquer país democrático?
Não percebo como é possível algum Governo, em alguma circunstância, mandar espiar a Presidência do país. Mais, como notava agora mesmo, na SIC-Notícias, Alfredo Barroso, como se concebe só passados 14 meses (os factos são de 23 de Abril de 2008), em plena campanha eleitoral, se discutir o assunto. Para já, é um erro do Presidente, notório: se as acusações podem ser comprovadas, deveria tê-las colocado ao Primeiro-Ministro, ao Parlamento, ao país, muito mais cedo. Não tão tarde, e em campanha, e sobretudo, por interposta pessoa. Se o Presidente não teve nada a ver com a divulgação deste caso, hoje e agora, então deveria igualmente agir e com provas afirmar que o que se passa é um equívoco. Se é independente, deve zelar pela saúde mental do país - que neste momento está psicótico. Como também não concebo, na SIC Notícias, que acabo de ver, uma leitu…

NOTAS SOBRE AS ELEIÇÕES

O país vai a votos, e não se devia falar de outra coisa. Mas ainda há o sol, a gripe A, e milhares de outras coisas tão mais interessantes que isso. Não deixo de poder partilhar algumas notas sobre esta pré ou quase campanha que tem sido invulgarmente esclarecedora. 1. os debates Não me lembro de nunca ter havido destes debates, tão igualitários entre líderes. De facto, para esclarecer ideias, não poderia haver melhor. E corrigem a imagem de trauliteirice que o Parlamento tem dado. Nem em Itália com o sr Berlusconi se ouvem coisas como - só de repescar este ano - se ouviram. Nos debates (como no excelente entre Portas e Jerónimo, ou no de hoje, entre Sócrates e Louçã) ficam tão claras as diferenças. Mostra uma vontade de esclarecer, trabalho sério dos candidatos, e falta de temor em ver todos os ângulos. A senhora portou-se bem, embora muitas palavras caiam ao lado do que quer dizer, mas a atitude mostra mais do que a cabeça de cartaz que é para o partido - aliás, péssima. Manuela Ferrei…