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JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

A música onde derrota o coração
Chopin: Nocturno No. 16, op. 55 Nº2

é um espelho, é água, é a derrota: como se nesta música eu pudesse perceber e ser ferido, levantar-me e cair, subir de pé à dor mais alta do meu coração.

é uma acústica da alma, como dizia Novalis. cada respiração, cada tema melódico, como fosse o que eu próprio cantei sem notas nem palavras, amando demasiado perto do coração para que ele próprio pudesse existir.

uma noite, há mais de dez anos, falando das nossas mágoas, o meu amigo Pedro, uma espécie de amigo da infância mas depois desta ter morrido, que sabe piano, também me contou que esta música era seu hino de glória às derrotas do coração. e explicou-me, de pautas na mão, o percurso das duas mãos ao piano quando se toca esta peça, o que uma sugere à outra, como entre o coração e o cérebro alguma coisa se comunica maior do que nós.
«somos como tendas de nómadas/ cegando à claridade»: assim dizia Natércia Freire, assim o repete esta música. como cair em cinco minutos de música na fronteira rasgada do nosso próprio coração.

começa com uma evocação amorosa, meia descoordenada na melodia, como quando tropeçamos na ternura, como dizia O'Neill. e acaba como uma recordação, como se se pudesse pôr a dor diante de nós, encará-la e depois adormecê-la e vê-la partir.


tudo o que os Nocturnos de Chopin têm de fútil, de rápido, de sensação desmesurada prêt-à-porter, de fast food emocional do coração, este Nocturno cala e explode. a mim os Nocturnos pedem um estado de espírito muito concreto, levemente piroso, que rima com excesso de consumo de duchaises e um vinho do Porto Lágrima. mas nada disso aqui, apenas a água onde o coração se corta para se lavar, no próprio correr.


foi com Claudio Arrau (Philips) que aprendi esta música, na sua integral dos Nocturnos, a melhor de todas: técnica e sentimento, contenção onde os outros se tornam "gondoleiros bêbados" (a expressão é de Piotr Anderszewski). mas falta nesta versão, para mim, o jogo de pausas e notas quebradas que torna este Nocturno quase um ensaio de uma sinfonia de Mahler.

Rubinstein, nas suas duas versões (EMI, anos 30, muita batata frita no som; e RCA, que se compra em França com o Chopin completo a vinte e poucos euros) tem a Polónia a cantar com ele; é uma versão de um romantismo ainda presente, que por outro lado ainda não toca no osso da ferida.

Ignaz Friedman (colecção Great Pianists ou Naxos Historical) é uma lição de como sentir há oitenta anos atrás. tudo aqui é nobre, mesmo quando cai.

mas - e perdoar-me-ão - nada há neste Nocturno como a versão de Ivo Pogorelich, em todos os excessos, para além de todas as possibilidades. aqui reconhece-se que o coração foi derrotado, que fomos derrotados por ele, que o amor está para além do corpo e é o corpo, essa batalha por desaparecer e perpetuarmos, por destilar um sentimento maior que o instante. desestabilizante e mortal.





Comentários

Olá. Não encontrando outra forma de contactá-lo deixo aqui a minha mensagem.
Terminei agora de ler o seu livro "333", numa esplanada de Lisboa acompanhada de uma 7Up. Terminei-o e apeteceu-me dá-lo á primeira pessoa que passasse por mim.
Como se fosse imperioso que alguém o lesse, e o fosse ver indubitavelmente com os meus olhos.
Patético talvez.
Mas gostei tanto dele que me apetece impingi-lo a qq um q seja capaz de juntar A+B.

Agora sim, vou ler o q se escreve por este Blog.

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