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JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

A música que dói porque lhe dei o meu corpo
Schubert: Sonata D. 960

era aquela terra de ninguém abraçante como um medo, e dupla: as noites da pré-adolescência, quando os pavores de criança são substituídos por outros, a recordação do dia anterior morde, e a dor de existir é a única coisa que constrói os dias. a tentar dormir entre todas estas coisas, e no andar de baixo, pelas noites longas de trabalho, o meu pai obvia obsessivamente esta música. tantas noites os meus medos me adormeceram nestas notas.


parecem vir de dentro: não conheço nenhuma outra melodia que pareça tão inteiramente nossa, construída por nós, uma ferida que o nosso coração cantou depois de destruir-se. avança, serena e secreta, e pára, como quando a nossa dor se torna consciente, sai de nós e nos olha, em desafio, antes de nos deixar com um beijo de ferro na memória.

e depois aquele primeiro tema regressa, canta como uma perda reencontrada; ecoa pela memória inteira, como se a chamasse para acordar, levanta-te de ti mesma

o segundo andamento tem uma tristeza mais definida, como se pudesse ter um nome, e o anterior fosse apenas uma coisa informe, um fantasma de anjo, demasiado real para se poder pronunciar.

os dois últimos andamentos, devo dizê-lo, oiço muito menos, e não me marcam como o primeiro.


ao longo dos anos esta música parece reunir-me cada vez mais: não traz consigo apenas as memórias presas, soltas quando passa: traz quem eu fui em cada momento, e como um fio de noite na alma, cose-as lentamente, até chegar a mim.

esta música é a ressurreição pela dor.

comecei a ouvi-la na versão de Alfred Brendel (Philips) onde o intérprete tão mental de Beethoven consegue um jogo de silêncios e respirações fecundo e muito afectivo. é a primeira versão que procuro sempre, o primeiro corpo que esta sonata teve comigo, ao subir as escadas da noite acordada.

Clara Haskil (EMI, colecção Great Pianists) é discreta e límpida, sem grandes abismos. Sofronitsky, o pianista que transforma uma peça solar numa travessia do deserto, que descobre torturadamente espaços de dor onde parecia apenas haver uma pergunta, tem nesta sonata um registo intermédio, mais brando do que seria esperável. mas há em pormenores mínimos passagens que ferem. Maria Yudina, a mulher que gravou dois concertos de Mozart numa noite só porque Stalin os queria ouvir, é uma interpretação (Vista Vera) difícil de encontrar, mas fere pela autoridade. aqui esta música torna-se impositiva, uma pergunta que pede resposta e convoca a cada instante.

Quem acha Horowitz um intérprete rápido, ouça esta Sonata (DG): é uma luta interior, contida, cheia de oscilações, um tormento psicológico.

E numa visão mais seca, em planos, em sobreposições, a mais moderna de todas as interpretações, a de Christian Zacharias (EMI): passeando na amazon alemã, consegue-se adquirir uma caixa com dez sonatas ao preço de três idas ao cinema. percebe-se tudo da caixa musical interior de Schubert, como a paleta de um pintor.


Clifford Curzon (Decca) é mental, mas a arquitectura da sonata salta aos nossos olhos. mas, há dois anos, uma descoberta cortante: as versões das sonatas de Schubert por Sviatoslav Richter (Brilliant). é impossível pensarmos como alguém consegue tocar tão lentamente, tão suavemente, sem que adormeçamos, agarrando a atenção pela garganta; a sua interpretação demora quase o dobro da de Brendel, e não percebemos como, porque nos parece tão certeira. mas é a música de alguém que se prepara para deixar a vida, e que escuta a vida como uma música muito longe, muito para trás do corpo, há séculos de sentimentos atrás. foi a última sonata escrita por Schubert, antes de morrer com trinta e um anos.

penso duas vezes antes de a ouvir. mas esta música, quando precisa do meu corpo, provoca-o: sequências de barulhos na rua que parecem o início da sonata, uma recordação que passa em filme na minha cabeça e esta música parece formar essa memória, ser o chão líquido onde tudo se constrói.

mas na verdade arde: porque esta música mora no meu corpo, existe porque circula dentro de mim, porque cada melodia existe porque alguém é a sua casa. e a música levanta-se, renasce, abre caminhos como luz, morre, e ressuscita.


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