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Mensagens

A mostrar mensagens de Agosto, 2009

O mar

Hoje eu fui a Bremen ver o mar.
O porto é grande, entre a neblina. Muitas grandes máquinas de ferro, que são como gigantes mortos ao pé do mar. Assustam-me desde que eu era menino. Talvez porque eu sempre fui um menino do campo. O mar me parece sempre um grande monstro ameaçador capaz de tudo. O mar em Portugal, por exemplo, é como uma namorada: bela e terrível, apaixonante e perigoso. Você sente que quer mergulhar mas quando entra não sabe nunca se vai sair. Mas o mar em Bremen me pareceu mais escuro, mais distante. Não via o mar de Bremen há doze anos. Me parecia triste. Talvez o mar precise que a gente tenha medo dele para existir.

LISBOA É UMA VARANDA SOBRE TODOS OS CONTINENTES

Lisboa é uma varanda sobre todos os continentes, cortada por um dos rios mais literários e místicos do mundo, de Camões a Santa Teresa de Ávila, dos Cancioneiros a Pessoa. É um dos melhores sítios para ler, porque os textos parecem ser a sua água.
Foi diante do Tejo que sempre li, ou até mesmo que aprendi a ler, quando a minha avó me sentava na varanda diante do rio, e me dizia “para além do barco que vemos há o destino do barco, que não vemos, mas que é mais verdadeiro que ele”. E nos últimos anos, depois de terem destruído essa casa, comecei a ler na esplanada do centro cultural de Belém.
Outro local, onde leio por motivos de investigação, é a Biblioteca Nacional. Acredito que estes livros, dos manuscritos às edições mais recentes, criam uma floresta interior, onde ospulmões da alma podem respirar por inteiro. Há aqui uma espécie de energia, que não tem a ver com a sua natureza, mas com esta espécie de irmandade silenciosa que foi ser criador de literatura e pensamento em Portugal – e…

PERCEBER UM POETA

Ontem um amigo meu poeta me trouxe o seu livro. Estava ainda em papéis, antes de o enviar ao editor. Ele me disse: «Dario, você tem que ler e cortar o que não quiser». Eu lhe disse que eu cortar, só sei árvores, mas ele queria muito que eu lesse. É uma grande responsabilidade, ainda disse a ele, porque ficar assim responsável por cortar a cabeça aos versos, é terrível.
Concordo com o nosso amigo poeta aqui do blogue que os versos são os pulmões da alma. Ao pensar nisso fiquei ainda mais doente.
Antes de aceitar, perguntei-lhe se a cópia era para mim. Disse que sim.
Fui então a correr deixar o meu amigo na cidade. Herr Hans ainda não fechou a loja (só no fim de Agosto) e tirei um xerox de todo o livro. E ainda cheguei à Quinta antes do sol cair. Pus os versos presos nos ramos de uma árvore, cada página amarrada com um arame, para não cair. E deixei assim os poemas do meu amigo, cada um no seu ramo de árvore. A Natureza ia ajudar-me a eu ler.

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

A música onde derrota o coração
Chopin: Nocturno No. 16, op. 55 Nº2
é um espelho, é água, é a derrota: como se nesta música eu pudesse perceber e ser ferido, levantar-me e cair, subir de pé à dor mais alta do meu coração.
é uma acústica da alma, como dizia Novalis. cada respiração, cada tema melódico, como fosse o que eu próprio cantei sem notas nem palavras, amando demasiado perto do coração para que ele próprio pudesse existir.

uma noite, há mais de dez anos, falando das nossas mágoas, o meu amigo Pedro, uma espécie de amigo da infância mas depois desta ter morrido, que sabe piano, também me contou que esta música era seu hino de glória às derrotas do coração. e explicou-me, de pautas na mão, o percurso das duas mãos ao piano quando se toca esta peça, o que uma sugere à outra, como entre o coração e o cérebro alguma coisa se comunica maior do que nós.
«somos como tendas de nómadas/ cegando à claridade»: assim dizia Natércia Freire, assim o repete esta música. como cair em cinco minutos…

MUDANÇAS

Herr Hans, onde todo o dia compro o jornal, decidiu fechar a loja.
- Estou cansado e o futuro foi-se embora.
Fiquei triste, mas mais triste por esta frase. O que será na vida de alguém quando o futuro vai embora? Nunca tive isso. Pude sempre olhar para o campo à minha frente e esperar coisas novas, árvores, flores, o pôr do sol, a chegada de alguém. Uma vez uma namoradinha que tive disse que eu era muito chato porque só pensava no hoje. E eu me lembro de lhe dizer: - Pois, porque assim espero melhor o amanhã. Herr Hans é novo, tem sessenta anos. Penso no que vai fazer nos vinte ou trinta anos que a vida tem à frente dele. - Isto de jornais cansa. É só tragédias e desgraças. E depois pensei que ele estava farto do mundo. Então decidi ir acabar o dia de ontem - quando isto se passou - no meio do pomar, e ver o sol desaparecer entre as árvores, para o esperar melhor amanhã.

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

A música que dói porque lhe dei o meu corpo
Schubert: Sonata D. 960
era aquela terra de ninguém abraçante como um medo, e dupla: as noites da pré-adolescência, quando os pavores de criança são substituídos por outros, a recordação do dia anterior morde, e a dor de existir é a única coisa que constrói os dias. a tentar dormir entre todas estas coisas, e no andar de baixo, pelas noites longas de trabalho, o meu pai obvia obsessivamente esta música. tantas noites os meus medos me adormeceram nestas notas.

parecem vir de dentro: não conheço nenhuma outra melodia que pareça tão inteiramente nossa, construída por nós, uma ferida que o nosso coração cantou depois de destruir-se. avança, serena e secreta, e pára, como quando a nossa dor se torna consciente, sai de nós e nos olha, em desafio, antes de nos deixar com um beijo de ferro na memória.
e depois aquele primeiro tema regressa, canta como uma perda reencontrada; ecoa pela memória inteira, como se a chamasse para acordar, levanta-te de ti m…