Avançar para o conteúdo principal

PERDER UM MURO

Hoje me está doendo o pensamento.
No fundo do jardim, onde tem um muro que separa de minha vizinha, Frau Lotz, havia uma pedra bem enorme, onde quando eu era criança me sentava. Aprendi muita coisa sentando ali. Pensava se o mundo acabava num muro igual a esse, ou se o mundo eram muitos muros seguidos um depois do outro (disso eu não gostava, me parecia que as pessoas viviam fechadas umas contra as outras).
Pois a chuvada que esteve fazendo aqui estes dias derrubou o muro.
Foi como se eu tivesse perdido um braço. Afinal, eu aprendi a pensar vendo esse muro. Agora já não há nada que me separe do mundo.
Pensava naquela história da poeta polaca Szymborska, que quando cortaram a árvore que ficava mesmo em frente da casa onde vivia com o marido, se sentiu nua no mundo.

Comentários

teresa maria disse…
Como se sobrevive à queda dum muro destes?
e ao derrubar daquela árvore em cuja sombra me refugiava?
será então que me torno adulto?
mas o que é ser adulto?

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…