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UMA CARTA INÉDITA DE SOROR FLÂMULA

Para aqueles que leram 333, conhecerão a história. Para os que não leram: o livro reúne pedaços das cartas de uma freira imaginária, Soror Flâmula da Encarnaçam. Aqui publico uma carta integral, que não foi integrada no livro.


Décima-Primeira carta de Soror Flâmula


Muytos & numerozos saõ os destinos dos homens. O corpo repparte-se por estradas & abysmos, na alma e no coraçaõ; poucos saõ os que podem olhar o fim de frente e naõ perder-se nele. Por isso sabemos quando o coraçaõ pára de bater, e nunca quando inicia.


O coraçaõ naõ-no temos: inventamo-lo, como a Terra reverbera o Sol. Saõ os meus dias todos que vos criam: desde que fuy gerada, no ventre de minha mãy, uma pergunta de ágoa e de espanto, que os meus braços vos procuravam, dessedentada. Vos ereis sempre aquele que eu imaginava, porque Deos só existe porque temos fome & sede delle. Poes o amor de Deos só existe porque Elle tinha fome & sede do amor dos homens. Relógio d'angustias, corredor de bracços: o cosmos é um ser que proccura outro.


Mas naõ conheço outros planetas que os do meu peito: esses que são como comettas, rasgando o meu corpo em partes por todos os lugares por onde vos partiis; esses que saõ feytos dos vossos passos, dos vossos pensamentos, dos vossos destinos. Tudo o que Vos fazeis, tudo o que Vos existiis, tudo o que sofreis ou passays, assim se grava no meu peito como a terra reverbera o Sol.


Assim, senhor meo, naõ quero outra sorte que a dos bicchos, que rastejam na terra e sabem o amor do pó; ou que das raizes, desconhecidas aos olhos dos homens, morrentes do escuro; naõ dezejo outro sentido que esperar-vos ao fundo da minha vida, vestida de esquecimento e desconhecida toda de mim mesma, nua de princippio e cega de fim. Como esperar a luz se toda ella é falsa, e nasce de vossos passos ainda por dar? Esmaguem-me poes as montanhas, os fantasmas, as noutes de amor por crear, os passos de Deos no jardim do Paraízo: em toda eu naõ ha morada, poes naõ cessaes de chegar de todos os lugares do meu corpo para me crear nos vossos braços, no soppro da vossa bocca. Quando me abrirem os ossos, no dia antes do último dia, aí veraõ: esta foy aquella que esperou o seu amor, vindo do fim dos tempos, para nascer. Esta foy a que morreo porque vivia a verdadeyra vida da morte. E aí será o jardim de luz onde se poderá atravessar, e ver Deos de frente.

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