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Ladainha dos dias póstumos

os dias são interiores, os dias são interiores,
estou sempre a dizer-me: quando o dia é meu, quando perco o dia,
os dias são interiores, os dias são interiores,
quando percebo o sentido do que vou fazer, do que estou a fazer, do que estou prestes a fazer, do que fiz, do que não fiz, do que dolorosamente poderia ter feito, do que percebi que fiz e não me dei conta que fiz bem ou mal, ou igual, ou nada, que é o pior dos dias,
os dias são interiores, os dias são interiores,
quando uma palavra é o caminho do dia, um verso, ou quando isto tudo era mais verdade do que eu, e agora se perdeu, uma toccata de Bach por Glenn Gould (a 914!), um soneto de Antero, uma frase de Séneca, um verso de Alberto Pimenta,
os dias são interiores, os dias são interiores,
quando o futuro era um dia, abria-se, chegava-se, instalava-se dentro do dia e dizia-se, era neste dia mesmo que eu queria estar, era assim mesmo que devia ser, era meu, não foi criado por mim, mas serve-me para eu o criar, são isso os dias, coisas que nos são dadas para os inventarmos,
os dias são interiores, os dias são interiores,
e os pássaros prendem as árvores e caem, ambos, no lugar onde havia um coração e agora há um músculo que sacode a perda,
os dias são interiores, os dias são interiores
ou imaginava um espaço para o que iria chegar, sentimentos longos, braços de absoluto, lábios e corpo onde se pudesse começar,
os dias são interiores, os dias são interiores

se alguém os viu, diga-me, para onde foram, eram tão dentro do meu peito que os perdi, não podem ter passado dentro do peito e terem ido para lugar nenhum, onde estão, onde estão, abraço-os com os meus braços de dentro, têm muito espaço e sobretudo vão a todos os lugares de lugar nenhum
os dias são interiores, os dias são interiores

[será que é o que diz o meu coração e eu nunca o ouvi bem?]

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