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JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

Mendelssohn, Sinfonia Nº 4, Italiana


Aquelas coisas que se acham engraçadas na adolescência, mas em que nunca pensamos poder passar mais do que uma viagem de Verão. E que depois nos regressam, com um rosto limpo mas com a ferocidade branca do passado, sabendo o nosso nome e prolongando-o em encontros sucessivos. aqui é a tua casa, pode ouvir-se soar de longe, na «fonte que regressa para si mesma».

O primeiro andamento é uma viagem de Verão: imaginária (se bem que experiencial) de Mendelssohn, por Itália. A surpresa inquietante de quem descobre o seu coração numa cidade, de quem já foi aqui não no corpo mas há séculos de sentimentos antes. O crescendo final nasce dos mais fundos reencontros, da energia de conhecer o próprio coração impresso nas paredes da paisagem.

O segundo andamento, como notava há dias o último número da Diapason (a minha ilha deserta em formato mensal e pelo correio), é uma espécie de melodia que nasce e regressa a si mesma, como um fumo. É como uma memória que se quer agarrar com todo o corpo, para que persista para além de nós (as memórias dos mortos são os sonhos dos vivos).

«Con moto moderato», terceiro andamento, é feito da tranquilidade dos espaços perdidos, de encontrar o nosso nome numa pedra, ou descobrir um recanto nas ruínas do nosso próprio coração. A orquestra, que parecia rebentar de vivacidade no primeiro andamento, é aqui uma melodia de caixa de música, muito suave, quase parecendo não querer acordar o passado, só sussurrar-lhe.

«Saltarello»: a peça mais rítmica, dançante, feroz de alegria. Crescendos e melodias disparam como foguetes numa procissão em Nápoles. Ouve-se a própria alegria, se isto é possível, nascer depois de ter morrido.


A integral de Wolfgang Sawallisch (Philips) é interessante mas datada; Charles Munch muito relativo mas com bons momentos (RCA), e a versão antiguinha de Fritz Busch (EMI - Great Conductors) faz-nos pensar no que seria a visão de Itália para um alemão nos anos 30.
A versão de George Szell é uma explosão: é impossível esquecê-la, um choque eléctrico de paisagens, perfumes e ritmos imparáveis. Falta-lhe alguma profundidade em alguns momentos, tão vital e voluntarista. Pode ser encontrada na antiga e excelente colecção "Essential Classics" da Sony, ao preço de um maço de tabaco.
Toscanini, forever. A versão na RCA com a sua Orquestra Sinfónica da NBC. Aqui é mesmo Mendelssohn que dirige, mas ao contrário. O velho e temido maestro, no seu retiro americano, a recordar a Itália onde nasceu nesta sinfonia. Monstros, saudades, le fontane, tudo grita como entrar pela porta da ressurreição na terra onde nascemos.

É impossível de escolher entre este fogo e o exercício de reinvenção e raiz de Guido Cantelli (Testament ou EMI). O jovem sucessor de Toscanini que morreu num acidente de avião aos trinta e poucos anos, deixou em poucos discos esta obsessão de cores e de luzes, em cantos e contracantos. Os crescendos são empolgantes, como ver as ruínas de Roma ganharem vida, os cortejos na Via Ápia, ou ver Assis como uma cidade irreal e branca suspensa e brilhante no cimo de uma colina. Há um momento no primeiro andamento, em que o tema rasgante e fulgurante, alegre, se torna, num crescendo, fantasmático, como se a paisagem se impussesse, gravasse - como se tivesse uma vida verdadeira e não estática, e imprimisse o seu espírito de lugar no ouvinte; é um dos momentos mais impressionantes de revelação na (minha) história da música, com esta gravação. Este maestro deitou para dentro desta gravação tudo o que a sua terra rasgou nele. Aqui se aprende que as pátrias são o que erguemos no coração, o solo que rasgamos em actos; não apenas o lugar onde viemos ao mundo, mas o lugar onde fizemos o mundo. Byron teria gostado.

Comentários

Anónimo disse…
Les Hebrides, sempre Mendelssohn. Desde a adolescencia ate' agora.

Um beijo, muitas saudades f

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