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A CARA EM MUDANÇAS

A Cara decidiu ser outra.
Foi há um mês, eu sei, mas só agora digeri. Será que a Cara tem stress pós-traumático? Será que a a Cara se viu ao espelho, impressa em tantos jornais e revistas, e entrou em catalepse?
Termos uma Cara que gere o país e agora decidiu ser outra pessoa é um caso muito grave. Será que o país é o mesmo? Será que teremos de ter um intérprete para cada fase da face: o que queria dizer a Cara-de-Agora quando era A-Cara-de-Antes? Quais as anunciações prévias, os esgares, que nos preparavam já para esta revelação? E tudo zangado porque a Senhora tinha um pitoniso, Pacheco Pereira; cá para mim A Cara teve pena de não ter o seu (pitoniso) e agora mudou para não ficar deficitária.
Mas e agora? Será que teremos ondas de compaixão, que percorrerão o país como naus singravam os mares desconhecidos, mais eficazes que os milhentos planos só papel de recuperação da economia? Que as imensas ondas dessa compaixão rebentarão todas as crises, enchendo o coração dos portugueses de tudo o que lhes falta?
Porém, uma coisa perturbou esta nova e santa face: os corninhos. Seriam uma indicação de que a Cara afinal seria falsa, que os corninhos eram afinal mal colocados?
E novos intérpretes para estes dois gestos, como para a nova cara.
O que precisamos mesmo não é de um guia, não, nem de um governo, não, nem de descobrir petróleo nas Berlengas! O que nós precisamos é de um intérprete de iconografia sagrada.

Enquanto não temos, a Cara em mudanças vai andar pelo país; vai prometer esgares novos; vai curar os remendos das autoestradas, as dores no orçamento, o sarampo, as bexigas, e a gripe suína. A Cara em mudanças irá a Bruxelas e convencerá tanto o mundo que até Berlusconi se deixará de festas privadas. E choverão propostas: porque não trocar todas as efígies do Infante pelas da Cara? Ou a Cara não estaria já nos Painéis de São Vicente? Ou será que aquela figura central não era mesmo e desde já a anunciação desta nova Cara, desta santa face, da própria Cara em mudanças?

Cada vez que a Cara mude, o país não perceberá quem o gere. A mesma pessoa, mas com duas caras.

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