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AUTOBIOGRAFIA SONEGADA À INSÓNIA #6


o meu corpo e eu nunca nos encontrámos.
sempre tive na minha cabeça braços mais longos do que tenho, e há dias em que peso muito menos do que a minha alma.
não sei como resolver isto. dietas, estou sempre a dar para esse peditório; confissões, idem; auto-retrato, o carvão odeia-me e vai para onde não quero. só me resta escrever.

é destas coisas que garanto que devo ter tido corpos muito maiores noutras vidas, talvez com o problema oposto: vidas demasiado pequenas para o corpo que se tem.


penso nisto muitas vezes: quererá o corpo dizer o que somos? na verdade, é tudo o que eu sou, o meu corpo, porque é tudo o que posso ver. e bem maior é o que está para além dele, desta massa energética cheia de pregas e de falhas, de montanhas e de sedes, de mistérios e de sons.

no outono dos nove anos lembro-me espantado de ouvir o coração nos pulsos. são as artérias, explicou-me pacientemente o meu pai, mas eu acreditei que tinha um coração para as mãos, outro para os pés, e até outro para a cabeça.

isso implicaria que as mãos se apaixonassem, sozinhas; que os pés gostassem de determinados sapatos, ou de algumas estradas (os meus gostam mesmo é de areia). e que a cabeça se apaixonasse por sítios que o coração não tem.

quando tinha vinte anos, e um coração míope, apaixonei-me por umas mãos. nunca soube de quem eram. era uma fotografia comprada em Paris, com dezoito anos, e a fotografia era tão desfocada que não se percebia se os dedos longos, perguntativos, eram de homem ou de mulher. eram dedos, umas direcções de casa e de força, que me deixavam ficar a olhar para elas, consciente de que a consciência do toque era melhor do que o toque.


e é prático: isto é uma paixão de mãos, isto é uma paixão de pés, isto é uma paixão de cabeça. não há problemas: olha, não podemos viver juntos porque isto é só uma paixão de cabeça. não é claro?

afinal o corpo tem lá tudo. desculpa, corpo, trinta e tal anos de surdez.

Comentários

Vekiki disse…
Estou a gostar muito, Pedro!
Muitos beijos ;-)

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