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Mensagens

A mostrar mensagens de Julho, 2009

Ladainha dos dias póstumos

os dias são interiores, os dias são interiores,
estou sempre a dizer-me: quando o dia é meu, quando perco o dia, os dias são interiores, os dias são interiores, quando percebo o sentido do que vou fazer, do que estou a fazer, do que estou prestes a fazer, do que fiz, do que não fiz, do que dolorosamente poderia ter feito, do que percebi que fiz e não me dei conta que fiz bem ou mal, ou igual, ou nada, que é o pior dos dias, os dias são interiores, os dias são interiores, quando uma palavra é o caminho do dia, um verso, ou quando isto tudo era mais verdade do que eu, e agora se perdeu, uma toccata de Bach por Glenn Gould (a 914!), um soneto de Antero, uma frase de Séneca, um verso de Alberto Pimenta, os dias são interiores, os dias são interiores, quando o futuro era um dia, abria-se, chegava-se, instalava-se dentro do dia e dizia-se, era neste dia mesmo que eu queria estar, era assim mesmo que devia ser, era meu, não foi criado por mim, mas serve-me para eu o criar, são isso os dias, coi…

PERDER UM MURO

Hoje me está doendo o pensamento.
No fundo do jardim, onde tem um muro que separa de minha vizinha, Frau Lotz, havia uma pedra bem enorme, onde quando eu era criança me sentava. Aprendi muita coisa sentando ali. Pensava se o mundo acabava num muro igual a esse, ou se o mundo eram muitos muros seguidos um depois do outro (disso eu não gostava, me parecia que as pessoas viviam fechadas umas contra as outras). Pois a chuvada que esteve fazendo aqui estes dias derrubou o muro. Foi como se eu tivesse perdido um braço. Afinal, eu aprendi a pensar vendo esse muro. Agora já não há nada que me separe do mundo. Pensava naquela história da poeta polaca Szymborska, que quando cortaram a árvore que ficava mesmo em frente da casa onde vivia com o marido, se sentiu nua no mundo.

UMA CARTA INÉDITA DE SOROR FLÂMULA

Para aqueles que leram 333, conhecerão a história. Para os que não leram: o livro reúne pedaços das cartas de uma freira imaginária, Soror Flâmula da Encarnaçam. Aqui publico uma carta integral, que não foi integrada no livro.


Décima-Primeira carta de Soror Flâmula


Muytos & numerozos saõ os destinos dos homens. O corpo repparte-se por estradas & abysmos, na alma e no coraçaõ; poucos saõ os que podem olhar o fim de frente e naõ perder-se nele. Por isso sabemos quando o coraçaõ pára de bater, e nunca quando inicia.

O coraçaõ naõ-no temos: inventamo-lo, como a Terra reverbera o Sol. Saõ os meus dias todos que vos criam: desde que fuy gerada, no ventre de minha mãy, uma pergunta de ágoa e de espanto, que os meus braços vos procuravam, dessedentada. Vos ereis sempre aquele que eu imaginava, porque Deos só existe porque temos fome & sede delle. Poes o amor de Deos só existe porque Elle tinha fome & sede do amor dos homens. Relógio d'angustias, corredor de bracços: o cosmos…

A ÁRVORE QUE DAVA LEMBRANÇAS

Esta é minha primeira colaboração neste blogue.
No meu jardim, perto de minha janela, há uma árvore que não dá nada. Meu chefe jardineiro perguntou muitas vezes: «Dario, podemos cortar ela?». Mas eu não deixei. Aquela árvore não dá nada, não, mas dá lembranças. É bom acordar de manhã e ver o sol nascendo, e os frutos pendurados nas outras árvores, são funcionários a caminho dos seus empregos. Mas esta minha árvore é poeta: existe sem motivo, só para ser.
E de acordar e ver ela, eu sei que tudo está certo no mundo.

AUTOBIOGRAFIA SONEGADA À INSÓNIA #6

o meu corpo e eu nunca nos encontrámos. sempre tive na minha cabeça braços mais longos do que tenho, e há dias em que peso muito menos do que a minha alma. não sei como resolver isto. dietas, estou sempre a dar para esse peditório; confissões, idem; auto-retrato, o carvão odeia-me e vai para onde não quero. só me resta escrever.
é destas coisas que garanto que devo ter tido corpos muito maiores noutras vidas, talvez com o problema oposto: vidas demasiado pequenas para o corpo que se tem.

penso nisto muitas vezes: quererá o corpo dizer o que somos? na verdade, é tudo o que eu sou, o meu corpo, porque é tudo o que posso ver. e bem maior é o que está para além dele, desta massa energética cheia de pregas e de falhas, de montanhas e de sedes, de mistérios e de sons.
no outono dos nove anos lembro-me espantado de ouvir o coração nos pulsos. são as artérias, explicou-me pacientemente o meu pai, mas eu acreditei que tinha um coração para as mãos, outro para os pés, e até outro para a cabeça.
is…

A CARA EM MUDANÇAS

A Cara decidiu ser outra. Foi há um mês, eu sei, mas só agora digeri. Será que a Cara tem stress pós-traumático? Será que a a Cara se viu ao espelho, impressa em tantos jornais e revistas, e entrou em catalepse? Termos uma Cara que gere o país e agora decidiu ser outra pessoa é um caso muito grave. Será que o país é o mesmo? Será que teremos de ter um intérprete para cada fase da face: o que queria dizer a Cara-de-Agora quando era A-Cara-de-Antes? Quais as anunciações prévias, os esgares, que nos preparavam já para esta revelação? E tudo zangado porque a Senhora tinha um pitoniso, Pacheco Pereira; cá para mim A Cara teve pena de não ter o seu (pitoniso) e agora mudou para não ficar deficitária. Mas e agora? Será que teremos ondas de compaixão, que percorrerão o país como naus singravam os mares desconhecidos, mais eficazes que os milhentos planos só papel de recuperação da economia? Que as imensas ondas dessa compaixão rebentarão todas as crises, enchendo o coração dos portugueses de t…

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

Mendelssohn, Sinfonia Nº 4, Italiana


Aquelas coisas que se acham engraçadas na adolescência, mas em que nunca pensamos poder passar mais do que uma viagem de Verão. E que depois nos regressam, com um rosto limpo mas com a ferocidade branca do passado, sabendo o nosso nome e prolongando-o em encontros sucessivos. aqui é a tua casa, pode ouvir-se soar de longe, na «fonte que regressa para si mesma».
O primeiro andamento é uma viagem de Verão: imaginária (se bem que experiencial) de Mendelssohn, por Itália. A surpresa inquietante de quem descobre o seu coração numa cidade, de quem já foi aqui não no corpo mas há séculos de sentimentos antes. O crescendo final nasce dos mais fundos reencontros, da energia de conhecer o próprio coração impresso nas paredes da paisagem.
O segundo andamento, como notava há dias o último número da Diapason (a minha ilha deserta em formato mensal e pelo correio), é uma espécie de melodia que nasce e regressa a si mesma, como um fumo. É como uma memória que se qu…

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

Tema e Variações do Sexteto de Brahms, para Piano

eu já andava em Brahms, morria e levantava-me. desde os 13 anos, Guilini a dirigir a Sinfónica de Londres no Coliseu, e eu pequeno, gordo de óculos, distraído ainda no futuro que nunca mais chegava, um corpo para gerir, um destino diante estranho e curvo, e aquela música a irromper, a Terceira, definitiva, torrencial.
pensava que já sabia tudo de Brahms. sei hoje que alguns seres vivos são guardiães, são sacrários de obras. porque as vivem intensamente, mantém-nas no mundo, laços entre o outro lado e este, nas suas contas de música.
afinal faltava esta música. Radu Lupu ao piano; e ainda para mais redescoberta, num disco que ouvi pouco. feriu-me tanto que passo os dias, em aulas, a andar, a dormir, e é aquela música que fala de mim e comigo, que me diz uma planície larga, fotografada por alguma coisa antiga, o abraço sufocante e luz do futuro hoje. tão eu que podia hoje fechar os olhos, e dar a minha última respiração ao ar de água que e…