Avançar para o conteúdo principal

quotidiano interior #2

para onde é que morremos



para onde é que morremos, em que direcção caem o sol e o sangue dos dias dados. os dias sangrados, pisados, consentidos, sem-sentidos. os dias dessensibilizados, os dias maiores que os dias, para onde, para onde caem? arde o sangue de tudo o que dei: tenho-o aqui, bem no centro do peito, para não me esquecer que sou uma bomba-relógio à espera do Big-Bang do meu corpo, para o cosmos morrer e se criar outra vez.


quando formos, para que direcção, perguntam as religiões. mas eu pergunto: o morrer hoje, o morrer que é o outro braço do corpo, o de todos os dias, essa economia de gestos ressuscitados, para onde é que segue? em morro para onde?


Toscanini, numa gravação de um ensaio da abertura "Coriolanus" de Beethoven, irritou-se eternamente e gritou à orquestra, no seu italiano de antigo testamento: «Give everything you have! I give everything I have!» Ele sabia para onde morria, para dentro da música, e que depois de desaparecer, seria uma sequência de sons, uma melodia de silêncios para dentro do grande tecido do tempo.

tenho a minha infância emoldurada à minha frente. uma pessoa de corpo a olhar para o futuro. mas é nos seus olhos que esta manhã eu olho, e me pergunta a mim, para onde morremos, para onde?


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…