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nove meses de água e um cordão


na apresentação de 333 (Biblioteca Nacional de Portugal, 3-6-9, 18h33)

os livros são seres mais vivos do que os seres vivos: esmagam-nos contra a vida, tiram-nos de dentro a verdadeira água: aquela em que verdadeiramente continuamos a nascer. Santo Inácio dizia «o homem é criado», não «foi criado», e sei hoje com o coração que ele falava dessa água: porque se crescemos em silêncio, dentro do ventre da nossa mãe, por nove meses de água e um cordão, quando nascemos, o nosso crescimento só se mantém por essa mesma água, que ficou dentro de nós, inquieta e aguda, com um novo cordão: os livros.
se sou vivo, se sou criado continuamente, é porque o fui por livros e por música. e por isso, naquele Verão de 2008, quando lia Bomarzo, de Manuel Mujica Lainez, a ideia deste livro se imprimiu em mim, frente ao mar de S. Rafael, e se impôs definitivo. tentei perceber o que o livro queria de mim, e uma dessas ideias-força era tentar reproduzir todas as relações que acontecem entre humanos e livros, livros e humanos – como se pudesse escrever com e escrever o poder dos livros. porém ainda hoje estou certo de que não fui eu que o escrevi: mas essas vagas sucessivas, dos mares da cabeça e dos mares diante de mim, que foram compondo as histórias desta história. e ainda hoje estou certo de que este livro não fez grande eleição em escolher-me como seu autor.
acredito que escrever é uma missão: um escritor é aquele que ouve o silêncio na larga biografia das suas feridas, e nelas os livros escrevem-se. somos caixas de ressonância de outras vidas, de outros tecidos, de outros fios, captados nessa sensibilidade, e que apenas somos mãos desses livros, e depois pastores. o destino total de um livro é o seu leitor: é aí que ele se escreve verdadeiramente, e se imprime em vidas para gerar mais vidas.
também assim com a História, esse romance de fios múltiplos que escolheu povos de homens e homens de povos, mas também de espíritos tutelares, de anjos, fantasmas e seres em passagem entre os vários limites da luz, e onde jogamos a nossa novela de realidade, o nosso custo em batalhas. desde os sete anos que comecei a ler por causa da História. o meu pai ofereceu-me o primeiro volume de uma história ilustrada da Humanidade, uns volumes castanhos com uns desenhos lindíssimos, para dentro dos quais eu me perdia para me encontrar. deu-me o primeiro volume, que era na verdade o número três, “Egipto, As Origens”, num dia de Julho, e disse-me, com aquela sua capacidade sorridente de fazer pactos connosco: «Só te dou os outros se leres este até ao fim». lembro-me de encostar o livro à camisa vermelha às riscas, e de sob o olhar testemunhal do senhor do quiosque, prometer àquele livro que o leria como ninguém o leria. foi assim todo o Verão, quando em vez de fazer os trabalhos de férias, passava as tardes a lê-lo, do princípio ao fim, depois de novo, parando no meio, fascinado com as linhas que cruzavam destinos, ardiam seres, e desmontavam impérios.
tornei-me um verdadeiro chato. e por causa destes livros, o meu verdadeiro primeiro amor, andei à pancada pela única vez na minha vida. foi na terceira classe: o brigão da escola roubou-me o volume sobre a Revolução Francesa, com um murro. nesse gesto, e no volume que nunca mais recuperei, percebi tudo sobre a Revolução Francesa, sobretudo que ele não tinha percebido nada da Revolução Francesa. por acaso chamava-se Luís, e espero que não tenha perdido a cabeça.
quando este livro me pediu que o ajudasse a existir, todas as linhas da minha vida pareceram cruzar-se, como quando amamos alguém do fundo da nossa história, num clarão onde os dias perdidos, as noites esmagadas, as manhãs negadas e as tardes expulsas parecem unir-se num clarão, e justificar a nossa história até ao mais pequeno lugar dos nossos corpos.
nasceu de outra paixão, essa que devo a três mulheres: era também Verão, mas de 2007, quando comecei a trabalhar como investigador no projecto Portuguese Women Writers, dirigido por Teresa Almeida e Vanda Anastácio. durante ano e meio devastei os manuscritos desta biblioteca, a paciência dos seus funcionários e a esperança dos seus anjos tutelares, graças a esse projecto onde procuramos encontrar escritoras portuguesas entre 1500 e 1800. o ambiente cardíaco dessa investigação, os corredores, canais e veias de transmissão dessas águas represas, não perdidas, e o encontro com os livros e obras perdidas depois das vidas que lhes deram origem e também tantas vezes, quase morte, são a verdadeira energia deste livro, que humildemente quer homenagear as escritoras perdidas como a protagonista deste livro, Soror Flâmula. que não é real, nunca foi, ou talvez venha a ser porque os leitores lhe darão vida, mas que é fruto da minha paixão (desembocada em doutoramento tórrido) por Feliciana de Milão. quero agradecer-lhe por estar a tornar-se viva, depois de tantas mortes que lhe deram, e por poder vir a marcar tantos leitores daqui para a frente.
quero também agradecer a tantos - tantos, que teria de referir 333 pessoas. como têm um romance para ler, serei breve: a todos os amigos, que responderam com tal entusiasmo a este lançamento que foi mesmo necessário pedir a alguns que não viessem, por não cabermos aqui tantos; à Maria do Céu Guerra e Laura Soveral, que mudaram as suas vidas para estarem aqui a ler uma escritora imaginária de 1500, em mais um gesto que gerou vidas, porque se imprimiu em cada um de nós com a sua voz; ao Francisco Bélard, Beatriz Onofre e Susana António, membros do Grupo de Teatro da Nova, e à Adriana Aboim, que no meio dos exames e do seu espectáculo tiraram tardes para corporizarem este livro. ao Rui Zink, a quem devo mais do que posso dizer, desde há quase 333 anos, e que me ajudou e tanto na revisão deste livro. à inquebrantável equipa da Divisão Editorial Literária do Porto da Porto Editora, na Cláudia Gomes, sua directora, que abraçou com entusiasmo este livro e na verdade o imprimiu; ao Rui Couceiro, incansável na promoção; aos pacientes revisores que endireitaram esta sintaxe perdida entre manuscritos de freiras e poemas de um século que já não sei qual é, e procuraram contar todos os exemplares erdidos, para a lista que têm no final bater certo. Mas sobretudo, sobretudo, à Mónica Magalhães, que viveu todas as linhas deste livro como se fossem suas, e o imprimiu em todos os seus gestos e na sua infinita energia e dedicação.
a todos os meus alunos da Companhia do Eu, que continuam a confiar-me os seus sonhos por escrever: sem eles, eu teria deixado há muito de escrever. e também ao José Félix, à minha irmã Rita, ao Ludovic e à Marie-Nöelle, à Estela, à Filipa, ao Daniel Falb, e a Berlim, onde este livro foi tão escrito, e a outros tantos amigos que o leram na primeira versão e contribuiram com sugestões. à música que o escreveu comigo, a Sonata de Liszt, de uma maneira vertiginosa que senti que escrevia música neste livro. mas a alguém sem quem eu seria incapaz de escrever, porque lê cada página, ouve cada ideia, partilha cada momento, e que me leva sempre a nunca desistir, a procurar mais profundamente o significado de cada coisa que me acontece, e a levar a água de tudo isso para dentro destas páginas: ao meu amigo Alexandre Nave, com uma gratidão tão grande como se ele fosse quase co-autor deste livro.

nunca pensei escrever um romance. nunca pensei ser capaz de lutar contra as metáforas e conseguir ajudar a trazer esta história à sua vida final. foi na verdade uma batalha interior. é aí, nessas batalhas interiores, que tiro água das coisas, nessa guerra comigo mesmo. refazer-me a cada instante, porque o verdadeiro rosto vem de dentro: e ver emergir da batalha de nós, escrito, tantos outros rostos de tantas coisas que amámos demais para poderem ser, pessoas, lugares, livros, versos, linhas, ou outras coisas que são grandes demais para existirem em palavras, mas mais verdadeiras ainda. como termos sido salvos por um livro, no Verão infinito e largo dos sete anos, ou por uma mulher morta há trezentos e três anos, e dessa batalha tirarmos a água onde outros vão lavar a vida, e ser.

Casa de Mateus, 30-5-9

Comentários

João Gundersen disse…
vais autografar o meu exemplar...
Brunorix disse…
Dois dias. Foram dois dias porque tinha que parar pela obrigação.

Dentro dos livros que eternizam o nosso caminho de leitores, há aqueles que consideramos bons, aqueles que consideramos muito bons e aqueles que guardamos na prateleira dos inesquecíveis. Dentro destes, há uma pequena franja que corresponde àqueles que "invejosamente" gostaríamos de um dia conseguir escrever.

Este foi, sem dúvida, um exemplar para a pequena franja da minha prateleira. Obrigado pelos 333 sorrisos de prazer e descoberta, que surgiram no meu rosto de leitor (e profundo admirador) ao acompanhar o destino de cada uma das 333 impressões (incluíndo as que eu senti).

Guardarei no meu percurso de aprendiz a luz da verdadeira inspiração:
"Bruno assustou-se; mas sentia que aquele homem era de alguma forma natural à sua busca - como se o seu caminho tivesse de colidir com o dele, porque o ancião tinha já caminhado respostas que ele deveria encontrar."

Um abraço de escrita sentida,
Nuno Cunha Rolo disse…
Parabéns, Pedro! Aceito a justificação por não ter recebido convite:-)...Muito sucesso, ou melhor, excelso reconhecimento do teu talento.
Abraço,
Nuno Cunha Rolo
Tatiana T. disse…
Pedro, tudo bem? Escrevo do Brasil e gostaria de saber se este seu livro (333)foi publicado aqui.

Meu blog: www.lotofword.wordpress.com

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