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hoje acordei com dores no futuro

do lado esquerdo do possível. uma vaga sensação de dor de cabeça entre o que podia ter sido e o que é.
alguma coisa me diz que esta dor vai ficar; é assim aos trinta, o corpo começa a ter hábitos, um esticão naquele joelho, a enxaqueca depois da ressaca. alguma coisa me diz que esta dor se semeou em mim, coisa que nasce na alma e porque é mais real que o real, estaciona-se no meu corpo, tem braços e queixas e manifestações. e cresce, cresce sobretudo quando não dou por isso, quando o lado esquerdo do possível morre um pouco mais. aí mergulha dentro de mim mesmo, expande-se, e aquilo que se via de frente para o futuro fica um pouco mais escuro.
não acredito em dores domesticadas: pertencem a quem quer sofás na alma. acredito em dores identificadas, olhos nos olhos, que andam connosco dentro do peito, uma cicatriz que abre tanto que um dia pode até trazer luz, sem esperarmos por isso. podem fazer muito por nós, e dentro dessa dor posso levantar-me, dar de beber ao mundo, compreender o coração que nunca terei.
são grandes espelhos, rasos como lâminas, e tão férteis que o sol dói quando se olham de dentro até ao futuro.

Comentários

jj disse…
A mim que acordei com "a dor que anda comigo dentro do peito" no pulso esquerdo, este texto iluminou-me o dia.

(Linkei-o.)

Jinhos.
Ana Paula Mata disse…
Este fim de semana andei em limpezas. Retirei da alma todos os sofás. Deixei apenas uma cama de rede.
Tenho esperança que as minhas cicatrizes ganhem efectivamente uma luz por dentro quando daqui a pouco amanhecer.
Bem hajas, Pedro, por me deixares entrar dentro das tuas linhas, naufragar nas tuas palavras e ter novamente consciência de que me dói. Não sei é onde. Mas dói. São os trintas...
apm
Sara disse…
Tou quase lá...

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