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A CARA, O GANAPERDE E O RAPTO

Passada uma semana, e rios de tinta sobre as eleições, junto-me a esse Tejo de expectativas, ou aos rios da Babilónia onde choram as harpas penduradas nos salgueiros.

1. A Cara
A Cara disse tudo. Era uma espécie de dor de barriga da autoridade, com o inchaço galopante de uma angústia. Era um vómito mas todo para dentro, aparentemente controlado, a rebentar a cada expressão.
Perdeu toda a autoridade. A cara sabia disso.
O que primeiro foi, no início dos quatro anos, determinação e programa, fazemos e pronto, tornou-se rapidamente autoritarismo, surdez ao outro, incapacidade. Isso acabaria por cair. O maravilhoso comício em Coimbra, todo Obamizado (segundo eles) revelou tudo isto: era ver A Cara, numa sala milimetricamente maquilhada, a desfazer-se em suor mais do que nas maratonas.
Depois a Ministra, essa entidade tão luso-anos-40, a entrar no Altis a vergastar os jornalistas como faz com os professores. Aquela imagem, aquele mover de braços, firme e impiedoso, gritou significados. E depois A Cara, inchaço de egos perdidos, a desfazer-se em directo e a ser incapaz de olhar para si própria. A Cara até podia ter salvo a cara, podia ter-se olhado ao espelho; mas a cara escolheu partir-se, perder-se.
Por isso proponho em referendo nacional que a partir de agora seja conhecido apenas como A Cara. Não houve imagem mais bela nestes quatro anos, não há na história de Portugal recente melhor exemplo para toda a destruição brilhante de uma construção falsa, sustentada em maquilhagem, agências de comunicação e vigilância sobre os media: A Cara são os painéis de são Vicente do século XXI Português.
2. Problema de poder, o poder é um problema?
O que mais me impressiona nestes momentos de fim de ciclo em Portugal é aperceber-me como os detentores do poder não sabem conviver com a democracia. Uma má democracia parlamentar na monarquia (culpa cada vez mais dos eleitos, não dos soberanos, como a História cada vez mais demonstra), uma república armada que morreu adolescente, como um daqueles soldados Liberianos, e o peso da ditadura, criaram um problema de imagem para os primeiros-ministros. Só conseguem sentir o lugar se agirem com uma autoridade que se torna atitude cega, desrespeitante da opinião do outro; se passarem da autoridade para o autoritarismo, em que a opinião alheia é um insulto e a discordância um delito.
Este foi o erro da Cara, como fora o erro de Cavaco, mas já bem no final. Embora Cavaco lidasse melhor com a opinião alheia.
O que me pergunto é o que haverá na ocupação deste cargo em Portugal, o exemplo do poder executivo, que cegue? Não me falem de Pombal nem de Salazar, quando não havia democracia. Falem-me na verdadeira incapacidade de se ser forte e dialogal, de se ser maduro, capaz de ouvir e decidir.
E quem for incapaz disto, está sempre sujeito ao mesmo destino: ser eleito porque é forte, reformador, e cai porque a sua autoridade é bacoca e falsa. Isto vai continuar a acontecer, e quem perde é o país.
3. O «ganaperde»
Quem ganhou, quem perdeu? Ganhou a esquerda (o PS não é esquerda há quatro anos, com a evidente excepção desassombrada de Ana Gomes e Manuel Alegre, e meia-dúzia de figuras), ou seja, ganharam CDU e BE. A CDU, porque viu o seu eleitorado manter-se e unir-se perante uma provocação da pior espécie, no 1º de Maio. Lutero nunca mais foi a uma missa católica, nem Calvino, porque a sua coerência interior era a única provocação possível: Vital não percebeu isso.
O que é evidente para o PS é que, como disse António Arnaut, o país quer ser governado à esquerda. O PS só governou à esquerda com Soares. Guterres era um social-cristão com suspiros sindicalistas, Sócrates quis ser mais Cavaco que o próprio Cavaco (sem reformas verdadeiras). Ou é agora que o PS entende que é à esquerda que deve governar, e de uma vez por todas inflectir verdadeiramente para chegar à sua raiz, ou as eleições estão perdidas.
O CDS ganhou; uma coisa que é evidente é que mesmo discordando da linguagem Portas, dos valores Portas, muita gente reconhece um trabalho de formiga em boa oposição. E ganhou contra o rasuramento em directo gratinado pelo micro-ondas do poder das sondagens.
E o PSD ganhou: e pelo menos agora, legitimada pelos votos, a Senhora tem capacidade de dizer ao que vem.
4. O futuro
Apostas desde já: o PS vai ganhar as eleições legislativas com 0,5% a 1% de diferença do PSD. Não se vai entender com ninguém: a CDU sabe que desaparece se entrar no poder, como todos os seus congéneres europeus que o fizeram (os franceses e os italianos); o BE sabe que rebenta internamente; com grande pena, porque teríamos pela primeira vez um governo verdadeiramente de esquerda neste país. E Sócrates vai desistir, e permitir à Senhora e a Portas coligar-se, com o eventual apoio de outros partidos, até novos.
Ou isto ou a senhora ganha ligeiramente à frente. Mas só conseguirá ganhar se fizer uma coisa nunca efectuada verdadeiramente em Portugal, que lhe permitirá resolver os seus problemas de imagem e comunicação, que é organizar um governo sombra que funcione; e que mostre, para os eleitores machistas deste país, que uma mulher pode pôr os barões na ordem.
5. O que verdadeiramente assusta
Assusta-me muito mais ser preciso relembrar: porque é que fizemos o 25 de Abril? Para nos expressarmos democraticamente.
A democracia não são as sondagens nem os opinion-makers os eleitores deste país. Parece que temos uma nova União Nacional, feita dessas duas cabeças no parlamento virtual das televisões. A democracia são as eleições, mesmo com abstenção, e mesmo europeias. Fossem dizer aos portugueses de 1973 que daí a trinta anos iríamos considerar uma eleição pouco importante, que garanto que quem o dissesse era linchado. Como é que deixámos isto acontecer, em nome de todos os anti-fascistas espancados e presos, em nome do meu pai, soldado na guerra colonial três anos, em nome de tantos silenciados? Como é possível deixarmos desvalorizar tanto uma eleição, uma expressão popular?
Nunca li, ouvi, tantas vezes, em tantos jornais, vituperar e esvaziar uma eleição de uma forma tão sistemática como esta. Ao ponto de uma cadeia de televisão ter feito uma sondagem, efectuada 3 dias antes das eleições, para colocar no ar depois das eleições europeias, dando a vitória ao partido do governo. Quando tinham falhado, quando as urnas falaram mais alto, o que queriam fazer com isto? Calar as urnas?
Mas o que é que se passa, que vírus, que cancro, que rapto da democracia se passa em Portugal em 2009, para deixarmos isto acontecer?

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