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AS COISAS QUE NOS ACONTECEM QUANDO TEMOS DORES NO PASSADO

Ontem, copo tardio no Peter's do Porto, beira-rio: conversas sobre almas, reencarnações, espíritos. Sempre vivi nisso, e agora mais, porque é o tema do meu próximo romance. Claro que se seguiu uma noite insone com a Segunda de Sibelius a tocar no Ipod, e cigarros à varanda a ver o Porto ser acordado pela luz.
Rua do Ateneu Comercial do Porto, 13h13. Andava ensonado à procura de uma loja, quando uma senhora, setenta anos puros nos olhos adolescentes, se aproximou. Aproveitei para lhe perguntar onde era o que eu procurava, ela lá me indicou com a luz abraçante que há no sotaque do Porto, e disse-me:
- O menino desculpe, mas não é da família do José Silvério?
Para além de prometer amor eterno a quem me chama "menino", fiquei tão atordoado que não percebi. Como estou habituado a que Sena-Lino dê Serafim, Rena Fino, Lena-Sino, Sereia Limbo, Senão-Limão, pensei logo que a senhora tinha conhecido o meu avô e se tinha enganado no nome.
- O José Silvério, de Faro.
Expliquei-lhe que tinha uma avó do Algarve, mas que o meu avô não tinha esse nome.
- Não, era Silvério mesmo. O menino desculpe, mas é tão parecido. Tão parecido. Tem a mesma cara, os mesmos gestos, até o sorriso é igual.
- Não sou, lamento.
- Olhe, desculpe lá, mas ainda ontem pensei nele. Fez ontem cinquenta anos que o vi pela última vez. E agora vi aqui o menino de um lado para o outro e estou a imaginar coisas. Mas tem mesmo a certeza?
Lá lhe contei a história da família, e até lhe disse que não podia ser, que o meu avô Sena-Lino teria quase cem anos se fosse vivo, e o meu pai era um pouco mais novo que a senhora.
- Deixe lá. Ele deixou-me para ir para o seminário. Depois acho que saiu, foi estudar letras para França e ficou lá a fazer uma tese sobre freiras. Ouvi dizer que escrevia poesia. Sabe, menino, a gente tem pena de perder assim as pessoas.
Dei-lhe dois beijinhos, desejei-lhe felicidades, tive vontade de dizer que estava para as curvas para encontrar outro Silvério, e voltei as costas: tendo a certeza que outro igual a mim, cinquenta anos antes, tinha vivido no coração daquela mulher.
PS - O contador do blogue, que se comporta fantasmaticamente porque não se vê por mais que tente, contou-me que atingimos esta semana 2000 leitores semanais. Acho que está mesmo enganado. Se não está, agradeço a tantos que por aqui passam.

Comentários

sakiko wang disse…
Eu sou um dos números. Textos-vício. E tinha um bisavô chamado Silvério.

(com muita pena, à última da hora não pude ir ao Clube Literário, mas fico atenta ao livro)

beijo*
Francisco disse…
é um facto: passamos uma vida a encontrar-nos
jj disse…
Enganado? Para o bem e/ou para o mal, as máquinas não se enganam... ;)

Como gosto, também!, que me chamem 'menina'... :))))))))))))))))))

Bem, que o menino não vá por aí acima com esta coisa dos romances - não desfazendo, claro!, que ainda não li o 333 - e se esqueça da poesia - que li, leio e lerei, toda, sempre, enquanto me arderem (muito), as palavras (e pouco, os olhos). Ehee!

Jinhos.

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