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Mensagens

A mostrar mensagens de Junho, 2009

hoje acordei com dores no futuro

do lado esquerdo do possível. uma vaga sensação de dor de cabeça entre o que podia ter sido e o que é.
alguma coisa me diz que esta dor vai ficar; é assim aos trinta, o corpo começa a ter hábitos, um esticão naquele joelho, a enxaqueca depois da ressaca. alguma coisa me diz que esta dor se semeou em mim, coisa que nasce na alma e porque é mais real que o real, estaciona-se no meu corpo, tem braços e queixas e manifestações. e cresce, cresce sobretudo quando não dou por isso, quando o lado esquerdo do possível morre um pouco mais. aí mergulha dentro de mim mesmo, expande-se, e aquilo que se via de frente para o futuro fica um pouco mais escuro. não acredito em dores domesticadas: pertencem a quem quer sofás na alma. acredito em dores identificadas, olhos nos olhos, que andam connosco dentro do peito, uma cicatriz que abre tanto que um dia pode até trazer luz, sem esperarmos por isso. podem fazer muito por nós, e dentro dessa dor posso levantar-me, dar de beber ao mundo, compreender o cor…

AS COISAS QUE NOS ACONTECEM QUANDO TEMOS DORES NO PASSADO

Ontem, copo tardio no Peter's do Porto, beira-rio: conversas sobre almas, reencarnações, espíritos. Sempre vivi nisso, e agora mais, porque é o tema do meu próximo romance. Claro que se seguiu uma noite insone com a Segunda de Sibelius a tocar no Ipod, e cigarros à varanda a ver o Porto ser acordado pela luz. Rua do Ateneu Comercial do Porto, 13h13. Andava ensonado à procura de uma loja, quando uma senhora, setenta anos puros nos olhos adolescentes, se aproximou. Aproveitei para lhe perguntar onde era o que eu procurava, ela lá me indicou com a luz abraçante que há no sotaque do Porto, e disse-me: - O menino desculpe, mas não é da família do José Silvério? Para além de prometer amor eterno a quem me chama "menino", fiquei tão atordoado que não percebi. Como estou habituado a que Sena-Lino dê Serafim, Rena Fino, Lena-Sino, Sereia Limbo, Senão-Limão, pensei logo que a senhora tinha conhecido o meu avô e se tinha enganado no nome. - O José Silvério, de Faro. Expliquei-lhe que ti…

333 no Porto

na apresentação de 333 no Porto (excerto)

os livros são a primeira experiência de salvação. sim, a literatura salva, como disse uma vez Eduardo Prado Coelho: sentado nas tardes de Verão a devorar História, e a ser devorado por ela, percebi que todos os inícios estão por criar, e que existimos porque temos de criar os nossos inícios permanentemente. que o próprio facto de estar vivo é essa força de recriação do começo: as fórmulas, conhecemo-las: foi por isto que, ou eu nasci aqui. nascem tantas vezes de feridas, e por isso são apenas as feridas que escrevem; e ao situar esse lugar novo, esse início, sabemos sempre que é a partir de uma ferida, da energia que trouxemos ao mundo com essa mesma dor, que recomeçamos. e ao dizer: «eu vou nascer aqui», levamos o mundo connosco. é nos livros que bebemos que nunca mais paramos de nascer, em todas as direcções, por onde se atire o sangue e o sonho, por onde os nossos braços precisem de chegar e não tenham movimento para isso. num livro, dentro …

A CARA, O GANAPERDE E O RAPTO

Passada uma semana, e rios de tinta sobre as eleições, junto-me a esse Tejo de expectativas, ou aos rios da Babilónia onde choram as harpas penduradas nos salgueiros.
1. A Cara
A Cara disse tudo. Era uma espécie de dor de barriga da autoridade, com o inchaço galopante de uma angústia. Era um vómito mas todo para dentro, aparentemente controlado, a rebentar a cada expressão. Perdeu toda a autoridade. A cara sabia disso. O que primeiro foi, no início dos quatro anos, determinação e programa, fazemos e pronto, tornou-se rapidamente autoritarismo, surdez ao outro, incapacidade. Isso acabaria por cair. O maravilhoso comício em Coimbra, todo Obamizado (segundo eles) revelou tudo isto: era ver A Cara, numa sala milimetricamente maquilhada, a desfazer-se em suor mais do que nas maratonas. Depois a Ministra, essa entidade tão luso-anos-40, a entrar no Altis a vergastar os jornalistas como faz com os professores. Aquela imagem, aquele mover de braços, firme e impiedoso, gritou significados. E depo…

quotidiano interior #2

para onde é que morremos



para onde é que morremos, em que direcção caem o sol e o sangue dos dias dados. os dias sangrados, pisados, consentidos, sem-sentidos. os dias dessensibilizados, os dias maiores que os dias, para onde, para onde caem? arde o sangue de tudo o que dei: tenho-o aqui, bem no centro do peito, para não me esquecer que sou uma bomba-relógio à espera do Big-Bang do meu corpo, para o cosmos morrer e se criar outra vez.

quando formos, para que direcção, perguntam as religiões. mas eu pergunto: o morrer hoje, o morrer que é o outro braço do corpo, o de todos os dias, essa economia de gestos ressuscitados, para onde é que segue? em morro para onde?

Toscanini, numa gravação de um ensaio da abertura "Coriolanus" de Beethoven, irritou-se eternamente e gritou à orquestra, no seu italiano de antigo testamento: «Give everything you have! I give everything I have!» Ele sabia para onde morria, para dentro da música, e que depois de desaparecer, seria uma sequência de sons…

nove meses de água e um cordão

na apresentação de 333 (Biblioteca Nacional de Portugal, 3-6-9, 18h33)

os livros são seres mais vivos do que os seres vivos: esmagam-nos contra a vida, tiram-nos de dentro a verdadeira água: aquela em que verdadeiramente continuamos a nascer. Santo Inácio dizia «o homem é criado», não «foi criado», e sei hoje com o coração que ele falava dessa água: porque se crescemos em silêncio, dentro do ventre da nossa mãe, por nove meses de água e um cordão, quando nascemos, o nosso crescimento só se mantém por essa mesma água, que ficou dentro de nós, inquieta e aguda, com um novo cordão: os livros.
se sou vivo, se sou criado continuamente, é porque o fui por livros e por música. e por isso, naquele Verão de 2008, quando lia Bomarzo, de Manuel Mujica Lainez, a ideia deste livro se imprimiu em mim, frente ao mar de S. Rafael, e se impôs definitivo. tentei perceber o que o livro queria de mim, e uma dessas ideias-força era tentar reproduzir todas as relações que acontecem entre humanos e livros, li…

quotidiano interior #1: da guerra comigo mesmo

em guerra comigo mesmo.
revitaliza a economia interior, anima os espíritos, reforça a paixão pela vida, liberta de pesos mortos interiores. e o meu próprio ser surge numa refrega interior, que alimenta os corpos perdidos de ócio.
não procuro a guerra comigo mesmo, acontece. e quando acontece, renasço. passo horas deitado no sofá, Bruckner a tocar ao fundo, vendo as nuvens, fumando obsessivamente ou levantando-me em discussão interior, tomando notas e perguntando a episódios o que significaram e quem fui eu aí.
o meu rosto vem de dentro. e por isso preciso de o ver, não com os dedos do hábito, mas com a reconfiguração perante a vida. quando a guerra acontece, eu ganho sempre. não existimos sem luta. o higienismo que governa seres e relações impede-o e sufoca-o. não crescemos senão com as feridas, com o mapear de mundos dentro de nós. Proust, Gide, Mann, dizem-no mais alto; e Shostakovich: «as minhas sinfonias são túmulos.» diante de mim mesmo, pondo-me em causa desde a raiz, permitindo tudo…