Avançar para o conteúdo principal

A SENHORA

Rui Tavares tinha razão numa das suas últimas crónicas: vemos Manuela Ferreira Leite falar, e ficamos aflitos como se fôssemos nós. Cada pergunta, cada resposta, e ai meu Deus, os silêncios, que parecem grand canyons rasgados e definitivos em quase nenhuns milissegundos.

Não tenciono votar na senhora, nem que aconteça uma catástrofe (que já vai acontecendo, com este Governo, que será recordado como o governo de maioria absoluta que menos fez neste país; os Governos do PS têm sempre um menos diante de si: Guterres o supremo menos, o pior primeiro-ministro do século XX; o de Sócrates, o que menos fez quando tudo poderia ter feito; Soares sempre foi um mundo à parte).

Não tenciono votar na senhora, dizia. Mas reconheço-lhe uma qualidade rara, mesmo nos silêncios. Uma qualidade que o animal feroz nunca teve nem terá, e que a política em Portugal raras vezes teve: esta senhora é ela mesma, sem maquilhagem ou agências de comunicação, com as suas limitações e as suas convicções. Mesmo que choquem frequentemente com as minhas, reconheço-lhe uma inteireza que pouca gente tem, e que a aproxima de pessoas na frente da batalha em que nada lhes serve senão as suas convicções.
E acredito em espanto que com tantas interrogações e receios, isto estranhamente poderá até falar mais alto.
Uma coisa reconheço ao grande intérprete da Senhora (Pacheco Pereira): tem sido enredada em julgamentos sumários. Talvez se preocupe demasiado em dizer certo quando devia dizer o que pensa. Há dias, a propósito da questão da farinha Maizena (vê-se mesmo que os ministros nunca deram papa aos filhos, para saberem que Maizena não é Cerelac), a senhora falou sem papel nem notas, sem teleponto, e foi por ali fora com clareza e sem becos sem saída.
O facto de eu procurar lutar pela igualdade de género leva-me sinceramente a crer que, apenas por ser mulher, alguns custos estão associados a estes julgamentos rápidos. Uma das preocupações que já ouvi a várias pessoas (todos homens) é «ela não é capaz de pôr os homens do partido em ordem». Não há marca mais clara de um certo machismo julgador do que isto. É como aqueles melómanos que quando vêem a célebre maestrina francesa Équilbey dirigir, dizem: «Bonito, mas com pouca autoridade.»
O que devíamos estar a discutir, em vez do bloco central, em vez dos erros da Senhora (que toda a gente sob a luz quadricular da grade da exposição pública faz), é se como país estamos preparados para ter uma líder da oposição, e decorrentemente, uma candidata a primeira-ministra.
Em Bizâncio, paradoxalmente, as poucas mulheres Imperatrizes tiveram de marcar o início do reinado a golpes de sangue. Quase nada me liga à senhora em termos políticos. Mas quando afirma que «ninguém a ouve», eu oiço a Imperatriz Irene ou a Imperatriz Zoe a terem de se sentar sobre cadáveres para serem consideradas alguém. Será que é isto que o país precisa para reconhecer que a senhora afinal é «cá dos nossos», para esquecermos que é mulher, porque é homem a agir, e o pormenor feminino só se revelar secundariamente? E se sim, nunca sairemos de uma cultura menor, redutora, e pouco avançada em termos de mentalidades. Pior, muito pior, do que o casamento só-procriativo.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…