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a luz ferida

as coisas que se amam demais por não se poderem repetir. saber que se podem repetir, mas que isso mata a vida que significam. porque falam precisamente de uma outra vida, aquela que acontece e rebenta, inesperada.
um encontro entre dois seres é sempre o acontecimento, absoluto: em que se deixa de ser um ser, rodeado de silêncio por todos os lados, para se ser água, comunicação. quando surge, e quando partes do nosso rosto antigo e futuro se mostram no outro, a vida, com essa energia improvável, regressa com uma força que ocupa tudo.

e depois o encontro acontece, amanhece, é o sol de dias anoitecidos, e depois o encontro perde-se. tudo nos diz que se repita, tudo nos pede que aconteça, mas provocá-lo é o contrário de acontecê-lo. e ficam essas feridas de luz, derramadas dentro do coração, um jamais intocável mas real, que sangra de significado.

as feridas são o significado.


pensava em tudo isto quando reencontrei há dias, de raspão pela cidade dispersiviva, uma daquelas feridas que amamos demais por não se poderem repetir.

e já não é o rosto, já não é o ser, não mais a pessoa, a nossa, a do Outro: mas essa ferida, que se reactiva, que se torna real, e ainda mais simbólica. Cristo ressuscitou, e segundo a tradição, tinha as suas feridas nas mãos e no lado. porque são as feridas que trazem luz, não os encontros. porque a nossa biografia é tirar água da dor.

Comentários

Sena-Lino, que texto fantástico. O real é o tempo do agora, as feridas são o tempo de ontem.

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