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JUSTIÇA CÓMICA

No século XVII literário inglês, teve sucesso a figura da justiça cómica; segundo Wimsatt, «vícios inferiores e a loucura que os acompanhava eram castigados com desdenhoso ridículo». Temos em Portugal, anteriormente, uma tradição imbatível nos cancioneiros galaico-portugueses a partir deste filão.
O que não esperava o primeiro-ministro e o seu governo é que a justiça cómica se aplicasse neles, se voltasse contra eles, uma vingança cultural vinda directamente das mais fundas tradições portuguesas. Não porque o seu governo mostre «vícios inferiores», no mesmo sentido que à época vingavam. Mas porque, também graças à crise, o nosso sistema de valores está a ser corrigido, e já não consideramos «vícios inferiores» práticas particulares, mas atitudes públicas. Como a autoridade arrogante, ou a propaganda pura e simples num momento em que a crise dorme com todos os portugueses, dos ricos aos pobres - é uma das suas características e marca da sua seriedade, em termos de eficácia simbólica: é transversal.
O que se passou ontem com os alunos da Escola António Arroio é precisamente uma daquelas cenas que os adeptos da justiça cómica no século XVII adorariam: o primeiro-ministro e dois dos seus ministros mais emblemáticos, a irem inaugurar coisa nenhuma; verem o seu gesto destruído e devolvido ao seu verdadeiro valor de engano público, serem muito bem enxovalhados com adjectivação relativa mas rica em sound-byte simbólico, e a saírem pela porta pequena.
Já o episódio Maizena se voltara contra o feiticeiro, que pensava ter encontrado uma poção, perdão uma papa mágica para amenizar os efeitos de um cabeça de lista inquieto. A ironia saiu-lhe como o défice, galopante, e contra si mesmo, e fez a primeira cena de uma boa peça de justiça cómica: «castigado com desdenhoso ridículo» e até com uma campanha da referida papa a emergir da campanha propriamente dita. Nem em Roma (a Antiga, que esta nova também tem muito de justiça cómica: a queda de Berlusconi será pelo leito).
E depois, ó maravilha da justiça, até a Comissão Europeia a desfazer o Magalhães-que-deu-a-volta-ao-mundo-até-à-Venezuela, e a contestar esta medida tão estranha sem concurso.
Compatriotas, ânimo e coragem: o nosso primeiro-ministro vai cair com estrépito. Cada passo de propaganda vai custar-lhe o ridículo que o seu cuidado com a agenda e o marketing lhe impuseram. Vítima dos próprios actos, vai cair mais depressa que uma certa conta do PIB. E se há tradição de sátira política em Portugal, não vai haver tradição para uma queda tão monumental. «Castigado com desdenhoso ridículo»: fixemos: são palavras que se vão cumprir.

Comentários

Anónimo disse…
Fixemos, pois.
Haja Esperança!!!!

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