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JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

12 SINFONIAS
A QUARTA SINFONIA DE BRAHMS

decidir abandonar o próprio coração.
sem repouso, sem lugar. não há descanso na terra, não há nenhum lugar «onde possa reclinar a cabeça», como Cristo. tudo é demasiado tarde, tudo é demasiado breve.

nesta música, logo ao início, ouvem-se as vozes da luz, clarinetes e metais, e as cordas atiram-nos para baixo, como se o coração rojasse na pedra suja da terra, devolvendo-nos à nossa condição.

quantas paixões morri e subi nesta música, pessoas, ideias, e aquelas tantas outras coisas que não são nem pessoas nem ideias, e que nos ferem mais do que a própria vida.

não sei quem seria se não existisse esta música: se Brahms não tivesse tido a coragem de a escrever, e pusesse aqui o seu coração terreno inteiro. não sei bem o que para aqui atirou, mas acredito que sabia que ficaria aqui dentro, e com isso salvaria muitos de tantas prisões.

há ilusões de descanso, no primeiro andamento, mas logo perturbadas: como se se abrisse um espaço que é logo para se revelar a descer, íngreme e catástrofe como o amor intenso do que é breve.

e há uma espécie de promessa, que não se resolve no tremendo e crescente final, uma certeza de que só subiremos em tudo e de tudo se nascermos das feridas.

o segundo andamento parece uma procura: como se saíssemos de uma noite absolutamente escura, e entre a luz vaga da lua procurássemos o nosso próprio rosto na água, na pedra, e nas mãos, e ele fosse demasiado líquido para o podermos encontrar.

não consigo ouvir o terceiro andamento, o «allegro giocoso» senão como uma auto-ironia devastadora, como Mahler mais tarde saberá criar: uma piada com as próprias dores. não deixa de ser grandiloquente, mas é o mais pomposo e menos interior dos andamentos desta sinfonia. talvez porque mesmo na dor precisamos de sorrir ou de respirar.
no final, há uma apoteose, mas aquela apoteose de quem morre esmagando-se a si mesmo diante de todos os medos, na cara do destino. «dar de beber à dor», para que ela grite.

ninguém é inteiro, rasga bem fundo esta música, ninguém é inteiro se não andar dentro das próprias dores, se não for feito não de pele ou de actos, mas de feridas.

Reiner, com a Royal Philarmonic Orchestra (Chesky Records) é difícil de encontrar, mas pratica uma encenação rigorosa, cantante e quase superior de tudo isto: está do outro lado desta dor, quase superada, e prefere cantar em rigor e em grandiloquência precisa. para ouvir em noites brancas, quando já só há estilhaços.


Klemperer (EMI), na integral que assinou, é eficaz e explicativo: grandes massas sonoras, um efeito avassalador, mas pouco pathos.

Para alguma luz nesta Sinfonia, é bom ouvir Carlos Kleiber, mas há uma precisão e uma leitura sublinhadamente em direcção à resolução, e para mim esta Sinfonia é a irresolução, é um drama pessoal e interior jogado até ao fim, e por isso, sem fim.

Toscanini joga no mesmo campo (RCA), mas há um esplendor sonoro onde por vezes parece ouvir algum do drama italiano onde ele cresceu como intérprete. Haitink (Philips), numa integral perfeita sem pathos, está fora nesta sinfonia, sem manter a chama a maior parte do tempo.

Hermann Abendroth (Berlin Classics), um maestro pouco conhecido, é capaz de uma assertividade delirante. O jogo aqui é todo sustentado nas cordas, que rangem e rasgam como a alma de um navio.

Para cair bem nesta sinfonia, Furtwängler: circula uma quase integral, com o terrível Duploconcerto (Archipel) onde os crescendos e os contrastes são demasiado violentos para aguentar. Muitas vezes tive de parar a audição a meio, por inacreditável. Quem quiser beber esta sinfonia, não apenas a construção, não apenas a música, mas a mensagem de ferro interior que repercute, tem de ficar aqui, e arriscar jogar-se.

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