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JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

A minha integral das Sinfonias de Beethoven
A NONA

Achei muitos anos que o mundo acabava aqui. Ou começava. Que a Nona Sinfonia de Beethoven era o que Vasco da Gama via desde o poema de Camões, a "grande máquina do mundo". Que nesta música alguém se levantava para nunca mais voltar a ser o mesmo, mas sempre outra coisa em movimento, imparável de interior.
Um tempo mais tarde, a subir num velho Renault ao Curral das Freiras na Madeira, entre esforços de brumas, enquanto a música corria, água inigualável, achei que esta música criava o mundo. Santo Inácio de Loyola diz que «o homem é criado», não foi, continua a sê-lo, num dinamismo infinito de criação desde o primeiro ao último dia. Esta música é essa energia, fonte onde ouvir é renascer.

E depois achei que o mundo tinha sido criado por causa da Nona Sinfonia: para que cada homem a pudesse ouvir e com isso receber a plena noção da sua humanidade.

Cada vez que oiço falar nas votações para as Maravilhas do Mundo, acho injusto e vazio que não esteja lá a Nona Sinfonia, que há de soar mais eterna a contar a história destes seres minúsculos e excessivos de alma que num certo tempo viveram neste canto do Universo chamado Terra - quando da nossa passagem física não sobrar senão uma partícula de pó e ventos.

É no primeiro andamento (Allegro ma non troppo) que tudo isto se joga e se pergunta. A respiração de Deus sobre as águas.

Depois vem toda a história do mundo. O segundo andamento, Molto Vivace, conta milénios de ideias, de batalhas, de descobertas solitárias, e de uma certa mulher perdida no meio de Sófocles ou gritando surda nas Escrituras. Tudo isso volta a ser nesta música, «tudo ressuscitado» como no poema de Cesário Verde.

Cortem-me o ouvido direito, mas o Adagio, terceiro andamento, é bonito demais para se poder aguentar. Por isso passo-o frequentemente à frente, depois dos quinze ou dezasseis anos em que passava o dia dentro dele. Colou-se de tal forma à pele da minha alma que é como se me ouvisse a mim, e eu não pudesse querer ver-me mais.

O último e célebre andamento conta-me sempre a história de como a genialidade anda dentro da simplicidade, quase perto demais da estupidez. Lembro-me no Immortal Beloved, um filme nem bom nem mau sobre Beethoven mas com um excelente Gary Oldman, como diziam do velho compositor estar completamente louco por andar pela casa a cantar uma música ridícula e infantil.
E depois a energia, a alegria revivificada, que nasce dentro de alguém que sai deste andamento.
***

Não aguento versões da Nona Sinfonia que não me empolguem desde logo. Frequento muitas versões, mesmo menos boas, de outras Sinfonias, mas aqui não consigo. A partir daqui até Brahms, Bruckner, Mahler, o meu sentido crítico aguça-se excessivamente, talvez porque oiça com mais do que os ouvidos críticos.

E por isso não posso partilhar demasiadas versões.

Digo que ninguém conhece a Nona se não ouvir o último andamento na versão de Ferenc Fricsay (DG), onde há uma secura que parece estar revelar o momento em que esta música foi acabada de inventar, ainda com a pauta manchada pela alma.

Toscanini, com a sua NBC Symphony Orchestra (uma orquestra criada especificamente para ele) em 1939, gravação da Naxos: há uma agressividade que arranca esta página do centro do Universo. É espantoso como através desta versão esta música nos parece moderna, e ao mesmo tempo tão profundamente biográfica, como se dialogasse com uma dor ou uma alegria que seja o nosso coração. Isto dirigido por um maestro que dizia, para que toda a gente o ouvisse, que sentia nunca ter completamente compreendido esta música.

Klemperer (EMI ou Testament) é mineral, mas as oscilações de tempo, que o caracterizam, não deixam aqui respirar a violência do mármore que é a marca de água das suas versões. Mas qualquer coisa de muito profundo respira aqui.
Norrington (Virgin), em instrumentos originais, reviu os tempos metronómicos, e a experiência é a de estar na estreia da Sinfonia, no dia 7 de Maio de 1824 em Viena. Os tímbales parecem relâmpagos, respira-se a Ideia.
Carlos Kleiber não gravou a Nona, pelo menos que se saiba, e eu penso muitas vezes que há coisas no mundo que são concentrações demasiadas de energia - como isso, se tivesse acontecido.

Szell (BBC Artists), como referia no post da Oitava Sinfonia, é uma audição a fazer seguida da Oitava. O maestro que preferia versões luminosas e não abusava dos contrastes e do pathos, faz rebentar aqui uma energia perfeita, numa das gravações mais equilibradas. Mas, para mim, não é ainda a potência agógica que a Nona fala.

Mas temos as várias versões de Furtwängler, e aqui demasiadas coisas se passam. Sófocles, a música concreta, o peso da morte no nosso corpo acabado de partir, Nietzsche, Buda, Pã, Cristo.

A versão da EMI, que reproduz o concerto que reabriu Bayreuth depois da Segunda Guerra Mundial, com a voz de Schwarzkopf que parece ter estado sempre nesta Sinfonia, desde a cabeça de Beethoven, é inultrapassável. Prefiro porém as novas gravações, com som quase stereo, como a da Orfeo, ou sobretudo a que foi gravada em Lucerna em 1954, e disponível na Tahra. Aqui o mundo começa, ou eu sou recriado.



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