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Mensagens

A mostrar mensagens de Maio, 2009

JUSTIÇA CÓMICA

No século XVII literário inglês, teve sucesso a figura da justiça cómica; segundo Wimsatt, «vícios inferiores e a loucura que os acompanhava eram castigados com desdenhoso ridículo». Temos em Portugal, anteriormente, uma tradição imbatível nos cancioneiros galaico-portugueses a partir deste filão. O que não esperava o primeiro-ministro e o seu governo é que a justiça cómica se aplicasse neles, se voltasse contra eles, uma vingança cultural vinda directamente das mais fundas tradições portuguesas. Não porque o seu governo mostre «vícios inferiores», no mesmo sentido que à época vingavam. Mas porque, também graças à crise, o nosso sistema de valores está a ser corrigido, e já não consideramos «vícios inferiores» práticas particulares, mas atitudes públicas. Como a autoridade arrogante, ou a propaganda pura e simples num momento em que a crise dorme com todos os portugueses, dos ricos aos pobres - é uma das suas características e marca da sua seriedade, em termos de eficácia simbólica: é…

a luz ferida

as coisas que se amam demais por não se poderem repetir. saber que se podem repetir, mas que isso mata a vida que significam. porque falam precisamente de uma outra vida, aquela que acontece e rebenta, inesperada.
um encontro entre dois seres é sempre o acontecimento, absoluto: em que se deixa de ser um ser, rodeado de silêncio por todos os lados, para se ser água, comunicação. quando surge, e quando partes do nosso rosto antigo e futuro se mostram no outro, a vida, com essa energia improvável, regressa com uma força que ocupa tudo.
e depois o encontro acontece, amanhece, é o sol de dias anoitecidos, e depois o encontro perde-se. tudo nos diz que se repita, tudo nos pede que aconteça, mas provocá-lo é o contrário de acontecê-lo. e ficam essas feridas de luz, derramadas dentro do coração, um jamais intocável mas real, que sangra de significado.
as feridas são o significado.

pensava em tudo isto quando reencontrei há dias, de raspão pela cidade dispersiviva, uma daquelas feridas que amamos…

FESTIVAL DE POESIA

Ainda hesitei em colocar a informação aqui, mas cá segue.
Entre 14 e 16 de Maio tem lugar um festival em Lisboa, onde se lançará a colectânea Verschmuggel (Contrabando de Versos). É o resultado do Festival de Poesia de Berlim 2008, em que 5 poetas portugueses trabalharam em dupla com 5 poetas alemães, traduzindo-se. Vale a pena assistir, pela comunicação entre dois universos tão diferentes, e pela forma pensada e sustentada como os poetas alemães falam da poesia. Recomendo vivamente.

A SENHORA

Rui Tavares tinha razão numa das suas últimas crónicas: vemos Manuela Ferreira Leite falar, e ficamos aflitos como se fôssemos nós. Cada pergunta, cada resposta, e ai meu Deus, os silêncios, que parecem grand canyons rasgados e definitivos em quase nenhuns milissegundos.
Não tenciono votar na senhora, nem que aconteça uma catástrofe (que já vai acontecendo, com este Governo, que será recordado como o governo de maioria absoluta que menos fez neste país; os Governos do PS têm sempre um menos diante de si: Guterres o supremo menos, o pior primeiro-ministro do século XX; o de Sócrates, o que menos fez quando tudo poderia ter feito; Soares sempre foi um mundo à parte).
Não tenciono votar na senhora, dizia. Mas reconheço-lhe uma qualidade rara, mesmo nos silêncios. Uma qualidade que o animal feroz nunca teve nem terá, e que a política em Portugal raras vezes teve: esta senhora é ela mesma, sem maquilhagem ou agências de comunicação, com as suas limitações e as suas convicções. Mesmo que choq…

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

12 SINFONIAS
A QUARTA SINFONIA DE BRAHMS

decidir abandonar o próprio coração.
sem repouso, sem lugar. não há descanso na terra, não há nenhum lugar «onde possa reclinar a cabeça», como Cristo. tudo é demasiado tarde, tudo é demasiado breve.
nesta música, logo ao início, ouvem-se as vozes da luz, clarinetes e metais, e as cordas atiram-nos para baixo, como se o coração rojasse na pedra suja da terra, devolvendo-nos à nossa condição.
quantas paixões morri e subi nesta música, pessoas, ideias, e aquelas tantas outras coisas que não são nem pessoas nem ideias, e que nos ferem mais do que a própria vida.
não sei quem seria se não existisse esta música: se Brahms não tivesse tido a coragem de a escrever, e pusesse aqui o seu coração terreno inteiro. não sei bem o que para aqui atirou, mas acredito que sabia que ficaria aqui dentro, e com isso salvaria muitos de tantas prisões.
há ilusões de descanso, no primeiro andamento, mas logo perturbadas: como se se abrisse um espaço que é logo para se reve…

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

A minha integral das Sinfonias de Beethoven
A NONA
Achei muitos anos que o mundo acabava aqui. Ou começava. Que a Nona Sinfonia de Beethoven era o que Vasco da Gama via desde o poema de Camões, a "grande máquina do mundo". Que nesta música alguém se levantava para nunca mais voltar a ser o mesmo, mas sempre outra coisa em movimento, imparável de interior.
Um tempo mais tarde, a subir num velho Renault ao Curral das Freiras na Madeira, entre esforços de brumas, enquanto a música corria, água inigualável, achei que esta música criava o mundo. Santo Inácio de Loyola diz que «o homem é criado», não foi, continua a sê-lo, num dinamismo infinito de criação desde o primeiro ao último dia. Esta música é essa energia, fonte onde ouvir é renascer.
E depois achei que o mundo tinha sido criado por causa da Nona Sinfonia: para que cada homem a pudesse ouvir e com isso receber a plena noção da sua humanidade.
Cada vez que oiço falar nas votações para as Maravilhas do Mundo, acho injusto e vazi…