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PARA SER INTEIRO

e a cruz estava vazia.

não acreditava em nada, nesse tempo. tudo me parecia um teatro a uma falsificação, a uma estrutura de poder que reinventara símbolos e uma dinâmica, sempre para se coligar com os vitoriosos, sempre para excluir.
até que
tinha quatorze anos e fui a Jerusalém. sem pais, com amigos distantes, eu e a minha grande pergunta. antes de entrar no avião, disse para quem quisesse ouvir dentro do grande vazio dentro de mim: «Se existires, tens uma oportunidade agora; se não existires, nunca mais quero saber de ti ao longo da minha vida.»
(podemos desafiar os humanos; mas desafiar o alto, com toda a violência de quem quer ser inteiro, rasga o tempo)
e não foi o Calvário, nem a Via Dolorosa, nem a casa pequena de uma rapariga de quatorze anos que viu um anjo e lhe perguntou "como", mas a Capela da Ascensão: aquela em que dois pés, cientificamente comprovados que há dois mil anos sofreram um dinamismo ascendente, rasgam uma rocha.
podemos desafiar os humanos: mas desafiar o alto, com toda a violência de quem quer ser inteiro, é uma rocha esmagada pela luz
e a cruz estava vazia
por dentro, nunca mais vais ser dividido. Pedro, de pedra, os teus pés foram rasgados dentro do teu corpo; e agora és luz, uma luz que liga todos os momentos vazios
tinha quinze anos e milhões de seres estavam ali comigo: de todos os cantos da alma ou do mundo, na mesma pedra rasgada. eu era eu e mais velho na minha pergunta do que eu mesmo; e a pergunta era agora, era aí que respirava, porque a pergunta do alto é ser um desafio a desmontar a vida
e a cruz estava vazia. não era a cruz que interessava, mas o outro lado da cruz: em que alguém se levanta, justificado pela dor, para ser inteiro

Comentários

Ana Paula Mata disse…
Que nome se dá a esta sensação que as tuas palavras fazem nascer dentro do peito?
Que nome se dá a esta viagem que fazemos contigo dentro de uma concha mais que segura e só aparentemente vazia?
A ida aquece-nos por dentro e reforça a fé. A volta relembra-nos que só fazemos sentido, se formos inteiros.
Obrigada.
ana oliveira disse…
A pergunta de todas as perguntas, a minha, ainda subsiste.
Não sou inteira. Duvido até hoje.
Mas acredito na tua luz.
Diz-me que é possível.
Bem hajas!
susana a. disse…
creio que nunca serei inteira. ou foi a fé que me abandonou ou fui eu que a abandonei, já não sei bem. porém, jamais conseguiria ser inteira, aqui e além gosto de de me encontrar dividida, gosto de acreditar em várias possibilidades e desfazer-me em perguntas, muitas.
Anónimo disse…
O caminho está aberto, leva-nos a um lugar e a lugar nenhum.
Cientificamente comprovado: a cruz estava vazia.
Nem Calvário, nem Via Dolorosa, para se ser inteiro não é precisa a dor. Desnecessária a dor. Como?
Pergunto-te a ti, Sena-Lino.
Sabes como evitar a dor?

Para se ser luz é preciso esqueceres-te de ti.
Abraço

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