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JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

A Oitava

É o problema de estar entre duas sinfonias enormes: é-se mal amada, comparada sempre em perda.
George Szell percebeu bem esta questão e várias vezes a dirigiu antes da Nona: como um resumo do anterior e um grande ensaio para a Sinfonia que iria mudar o género e a História da Música.
Eu gosto da Oitava como uma coisa vertiginosa que se viveu uma vez e se quer repetir; com a certeza de que será como a primeira vez, mas ainda melhor, com o mesmo gosto a velocidade do coração.
Para a troca tenho apenas três, quatro versões. Aquela em que conheci a Sinfonia verdadeiramente, e que é de Hermann Scherchen (Westminster) e que foi republicada na colecção Great Conductors of the XXth Century (capa em rodapé como nos concursos nos anos 80). É uma versão cheia de arestas, corridas, afirmações. É a versão que recomendo, e a que volto, sobretudo nos dias em que estou a começar um projecto novo. É a minha banda sonora dos começos mentais.


De visitar, claro, Mr Toscanini, que também gosta de ver a Sinfonia em tons definitivos, impositivos, e rápidos. Um pouco mais de terror na versão de 1939 (Naxos), um pouco mais de luz na dos anos 50 (RCA). Du coté de la danse, o adorável Pierre Monteux, numa versão saltitante que nos dá vontade de convidar a orquestra e o mundo para jantarem fora connosco (Decca, acoplada com a 1ª, 3ª e 6ª, negócio nada de desdenhar nos dias que correm em que o verbo, o adjectivo e o substantivo mais conjugado é crise).


Szell é outro campeonato. Assinou uma integral que ainda aí em promoções loucas na net (5 discos por €25), Sony, com a Orquestra de Cleveland que era o dispositivo mais suíço do mundo, com um jogo de cordas que nem o inenarrável Karajan conseguiu. Estas são versões das Sinfonias em tipo raio-X: ouvimos coisas que nunca ouvimos, tal o trabalho preciso do jogo de naipes. Mas a versão que recomendo traz também a Nona, é da BBC Artists, fácil de encontrar, e tem uns pozinhos de orquestração (Szell pôs umas tubas a soar mais cedo) e de facto ouvimos a Nona na Oitava. Vale a pena.


NB - Há de facto leitores muito simpáticos: está a acabar este ciclo pessoal das sinfonias de Beethoven, sem conhecimentos de música (senão o do violino aos doze anos que se separou de mim por querer de mim coisas diferentes, a velha coisa do "a culpa é minha, não é tua"- foi realmente o primeiro amor que me deixou); pois não é que há quem o ache interessante, e mais, até se zangue por não encontrar alguns dos discos que proponho? Pois agradeço aos leitores e prosseguirei, como puder, depois de Beethoven. Os próximos Jardins são sobre 12 Sinfonias em que ando, mais dentro da alma do que o meu próprio corpo.

Comentários

post interessant.gostei sobretudo do principio

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