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AUTOBIOGRAFIA SONEGADA À INSÓNIA #5

todas as coisas se partem

sempre fui muito dado a partir. no Alentejo dizem que é ter "mãos de Domingo". no meu caso é mais como dizem no Norte, sou "palonso", desajeitado. talvez por isso goste de encostar o coração a tantas coisas que partem, antes para aprender a quebra, agora para aprender a duração, a resistência [acho que só cá andamos para aprender a pensar com o coração].
um dia a pessoa que mais amei no mundo partiu. mas antes disso prometemos um ao outro que ela iria ao outro lado, esse outro lado de que tanto esperava e tanta imaginação e saudade lhe rasgava no peito - como se o tivesse conhecido e tivesse a consciência da ferida. Que ela iria ao outro lado e me viria cá contar como era. o que partir primeiro, vem ter com o outro.
e a partir daí, quando ela partiu, não houve momento importante na minha vida em que, no cume mais alto de sentir a sua ausência, ou quando muitos estávamos reunidos com o pensamento doído dela, alguma coisa sempre se partia. como se alguém passasse em luz, uma luz sonora e invisível, e a sua passagem quebrasse o vidro dos nossos próprios olhos. o que partir primeiro...
estou hoje mais cuidadoso: ponho os copos no centro da mesa, seguro tudo com as duas mãos (e por isso parto o coração mais depressa), divirto-me com o malabarismo de segurar as coisas. nem por isso ela deixa de vir, em momentos precisos. como ontem. quando precisamente sentia uma estranha, habitada, mas seca solidão, de um caminho áspero demais para duas mãos. para me lembrar que tudo o que (se) parte é um caminho.

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