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APRIL IN PARIS

para a Josiane, irmã de tanto
April in Paris, we know the song by Vernon Duke and E. Y. Harburg, voz de Ella ou Sarah Vaugham, mas on ne s'attend pas á ce que ce soit vrai. April in Paris para uma freira do século XVII, um poeta do século XXI (mais ou menos), juntos num doutoramento tórrido.
Saber - viver - que a morte não é o que os olhos pensam. Que este lado é mais feito de vida da morte, de labirintos onde a luz rasga feridas para serem mais luz.
Que os outros, os perdidos, essa entidade que abraçamos em silêncio tantos dias com a garganta cortada, cada vez mais distantes nas fotografias e mais presentes nos gestos que têm só espaço na alma - que os outros, os mortos, estão connosco. Que os afectos são mais duros que o tempo, porque a sua essência é a duração, é ser connosco.
Fazer isso, essa experiência, com uma morta que nunca conheci senão em papéis, que colecciono em lógica numa tese. E que está mais comunicante que tantos vivos, tantos vivos que afinal só me mostram o definitivo da morte. Saber que é o que não morre que interessa, e que não nos larga porque essas são as cidades de alma, Abril em Paris, Jerusalém sem Inverno, «o amor em delta».
É porque o tempo não é o tempo que os olhos não pensam.

Comentários

Rita disse…
Peter, dear.
Daqui, do lado dos vivos. Que a sua morta se sinta viva, nem que seja pelo tempo que lhe está a dar em vida.
Uns macaroons na Ladurée, na Av. Bonaparte, fazem-nos fechar os olhos, não para o lado da morte, mas do prazer e do deleite que é Paris em Abril...

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