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Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2009

AUTOBIOGRAFIA SONEGADA À INSÓNIA #5

todas as coisas se partem

sempre fui muito dado a partir. no Alentejo dizem que é ter "mãos de Domingo". no meu caso é mais como dizem no Norte, sou "palonso", desajeitado. talvez por isso goste de encostar o coração a tantas coisas que partem, antes para aprender a quebra, agora para aprender a duração, a resistência [acho que só cá andamos para aprender a pensar com o coração]. um dia a pessoa que mais amei no mundo partiu. mas antes disso prometemos um ao outro que ela iria ao outro lado, esse outro lado de que tanto esperava e tanta imaginação e saudade lhe rasgava no peito - como se o tivesse conhecido e tivesse a consciência da ferida. Que ela iria ao outro lado e me viria cá contar como era. o que partir primeiro, vem ter com o outro. e a partir daí, quando ela partiu, não houve momento importante na minha vida em que, no cume mais alto de sentir a sua ausência, ou quando muitos estávamos reunidos com o pensamento doído dela, alguma coisa sempre se partia. como…

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

A Oitava
É o problema de estar entre duas sinfonias enormes: é-se mal amada, comparada sempre em perda. George Szell percebeu bem esta questão e várias vezes a dirigiu antes da Nona: como um resumo do anterior e um grande ensaio para a Sinfonia que iria mudar o género e a História da Música. Eu gosto da Oitava como uma coisa vertiginosa que se viveu uma vez e se quer repetir; com a certeza de que será como a primeira vez, mas ainda melhor, com o mesmo gosto a velocidade do coração. Para a troca tenho apenas três, quatro versões. Aquela em que conheci a Sinfonia verdadeiramente, e que é de Hermann Scherchen (Westminster) e que foi republicada na colecção Great Conductors of the XXth Century (capa em rodapé como nos concursos nos anos 80). É uma versão cheia de arestas, corridas, afirmações. É a versão que recomendo, e a que volto, sobretudo nos dias em que estou a começar um projecto novo. É a minha banda sonora dos começos mentais.

De visitar, claro, Mr Toscanini, que também gosta de ver …

APRIL IN PARIS

para a Josiane, irmã de tanto April in Paris, we know the song by Vernon Duke and E. Y. Harburg, voz de Ella ou Sarah Vaugham, mas on ne s'attend pas á ce que ce soit vrai. April in Paris para uma freira do século XVII, um poeta do século XXI (mais ou menos), juntos num doutoramento tórrido. Saber - viver - que a morte não é o que os olhos pensam. Que este lado é mais feito de vida da morte, de labirintos onde a luz rasga feridas para serem mais luz. Que os outros, os perdidos, essa entidade que abraçamos em silêncio tantos dias com a garganta cortada, cada vez mais distantes nas fotografias e mais presentes nos gestos que têm só espaço na alma - que os outros, os mortos, estão connosco. Que os afectos são mais duros que o tempo, porque a sua essência é a duração, é ser connosco. Fazer isso, essa experiência, com uma morta que nunca conheci senão em papéis, que colecciono em lógica numa tese. E que está mais comunicante que tantos vivos, tantos vivos que afinal só me mostram o defini…

PARA SER INTEIRO

e a cruz estava vazia.

não acreditava em nada, nesse tempo. tudo me parecia um teatro a uma falsificação, a uma estrutura de poder que reinventara símbolos e uma dinâmica, sempre para se coligar com os vitoriosos, sempre para excluir. até que tinha quatorze anos e fui a Jerusalém. sem pais, com amigos distantes, eu e a minha grande pergunta. antes de entrar no avião, disse para quem quisesse ouvir dentro do grande vazio dentro de mim: «Se existires, tens uma oportunidade agora; se não existires, nunca mais quero saber de ti ao longo da minha vida.» (podemos desafiar os humanos; mas desafiar o alto, com toda a violência de quem quer ser inteiro, rasga o tempo) e não foi o Calvário, nem a Via Dolorosa, nem a casa pequena de uma rapariga de quatorze anos que viu um anjo e lhe perguntou "como", mas a Capela da Ascensão: aquela em que dois pés, cientificamente comprovados que há dois mil anos sofreram um dinamismo ascendente, rasgam uma rocha. podemos desafiar os humanos: mas desafiar…

AUTOBIOGRAFIA SONEGADA À INSÓNIA #4

começar a escrever


querer escrever, e não se saber o quê. a noite ferve uma vontade, há espaços abertos entre a memória e um quarto ao fundo, metade luz, metade desconhecido. estou à porta, tenho quinze anos, e uma caneta, um papel, não valem a vontade de atravessar. quero ir para dentro do texto, mas não sei agarrar essa presença. o espaço existe se a presença me quiser, tudo conjura, a noite arde dentro.

tantas paixões pisadas por um coração maior. por não saber esse coração é que a noite me dói, e com ela o meu corpo do futuro. tenho quinze anos e isso dói mais que a minha respiração. a dor é o futuro que tem de nascer do presente.
quero seguir dentro de mim mesmo, mas nada consigo seguir. escrever é atravessar por dentro.
olho para o fogo, a lareira arde os meus pensamentos: pego interiormente na minha própria dor e escrevo.