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Rever um romance

Estou a rever o romance 333 que vou publicar em Junho com a Porto Editora.
Ter-me acontecido um romance é o mistério maior. Como é que a mim, que tantas vezes nem me lembro como me chamo, me foi dado o mistério de governar 333 personagens? Pergunto-me dia após dia, e agora aqui. Porque tenho a certeza de que se somos a matéria de que se formam os nossos textos, há um quase nada, absoluto, que nos ultrapassa: que vai mais depressa do que duas mãos e uma biografia ao fim do texto, e nos atira com um espelho, uma montanha, um alçapão bem mais largo que os nossos dias.
Não sei hoje, não sei mesmo, com as provas diante de mim e as suas vidas a começarem a tornar-se reais, se este livro está satisfeito com o seu escritor. Sei que este livro me escreveu, em tantas noites de dia, até ao ponto em que eu deixei de interessar, e ele, o livro, chegou ao seu destino.
Pastorear um verso ou uma personagem é bem diferente (isso é matéria para outras considerações...). Mas, eu, como leitor, que sou feito de centenas de personagens que se sobrepuseram na minha história, e a alargaram de maiores compreensões, sei que gerar uma personagem é uma tarefa grande: porque são pessoas que existem com cada ser humano num espaço bem mais largo que o seu, e que por isso podem comunicar, silenciosas e vivas, espelhos, montanhas e alçapões. São laboratórios de ser e o próprio espaço onde os seres podem respirar.
Na arte de rever, tudo isto está em causa: depois do sexo, as consequências. É o momento em que o livro me olha de frente e me diz: foste capaz?
para a Mónica, a Cláudia e o Rui, já em agradecimento

Comentários

sakiko wang disse…
Gostei muito desta reflexão. Fico à espera do livro : ) *

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