Avançar para o conteúdo principal

PRIVATIZAR O ESTADO

Ontem, na sempre excelente crónica de Rui Tavares no "Público", dava conta de um inquérito que revela como os portugueses querem ver e muito o Estado a assegurar os serviços principais. Rui Tavares fazia uma digressão de como esse facto nos mostra ser de esquerda.
Concordo e não acho suportável, ainda para mais depois desta crise, que se considere que essa escolha nacional é pobreza cultural, vício ou imaturidade de um povo que precisa de um governador forte - como durante e pós-Salazarmente foi feito circular. Esta ideia de que Portugal é uma colónia de si próprio é tão fecunda e tão cheia de sinais - e tão errada - que algum dia teremos de nos sentar e discutir isto. Porque, por outro lado, penso que somos o país que menos reflecte sobre o seu estado e a sua história em termos colectivos. Não discutimos nada, ou se sim, em grupos fechados e a discussão não transcende esse gosto tribal inconsequente.
Voltando ao Estado: toda a gente o quer, toda a gente sabe que não funciona. Tratar de um papel em Portugal é semelhante a encontrar um tesouro escondido no fundo dos bancos de coral da Austrália, à resolução de um teorema matemático, à descoberta de um segredo de Fátima. Quando dei aulas de português para estrangeiros, e os meus alunos tinham de ir tratar de um papel, dizia-lhes sempre: «Prepare-se para uma aventura incrível de invenção burocrática. Desprograme o dia todo e vá cheio de livros, revistas e paciência. E depois faça uma composição, claro.» Ainda guardo algumas composições num Português periclitante, mas cheias de espanto ou de riso.
O que me parece que podemos fazer a este Estado de que todos precisamos e que não funciona é privatizar este. Vendê-lo. Não queriam que vendéssemos a Caixa Geral? Então vendemos este Estado (com o Governo incluído). E depois criamos um novo, feito da vontade comum, do desejo comum, dos princípios comuns. Garanto que ia custar muito pouco, e sobretudo e era mais importante, livrávamo-nos de uma coisa bem ingovernável.

Comentários

Xô Padre disse…
É uma excelente ideia!

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…