Avançar para o conteúdo principal

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS


A minha integral das Sinfonias de Beethoven

A Sétima



Quando eu morrer - e que seja um morrer a sério, desses que atravessam a luz, e trazem respiração aos que ficam aqui - e olhar para os dias todos que me foram dados para a minha passagem, o que fiz, o que perdi, o que deixei, o que não subi, gostava que fosse a ouvir a Sétima. Sei que nesse momento não vou ouvir com estes ouvidos, mas com o coração. Sei que vou ouvir por dentro, por dentro das coisas todas, da própria substância da música, que é mais verdadeira que o tempo porque é o ritmo do tempo.


Mas dentro da Sétima de Beethoven, eu poderei agradecer a cada coisa a ferida que me fez existir a cada momento.



Não é do conhecidíssimo Allegretto de que falo - mas da voragem que percorre o primeiro andamento, e do crescendo mais recriador de toda a História da Música no final do último andamento. Esta música de batalha, de uma batalha dentro da alma, salvou-me de tantos dias mortos, de dias em que não queria existir, porque não queria perceber o que o dia me pedia. Como diz o Pe. António Vieira (e cito de memória): "Só existimos nos dias que fazemos; nos dias que não fazemos, apenas duramos".


Mais do que desfiar interpretações, quero partilhar o mais profundo de uma comunicação: em que o trabalho de alguém resgata outro, sem que o primeiro saiba do segundo.

Estive a contar e tenho mais de vinte versões da Sétima (o que me deixou um pouco abalado em termos de obsessão). Mas comecei-a com Furtwängler, Berlim em 1944, tocar como se a vida só disso dependesse, numa violência da luz: é a interpretação mais apocalítpica que conheço.



Toscanini, 1943 (Naxos) ou 1950s (RCA): energia, ritmo, intensidade, a emoção da invenção de Beethoven. Klemperer (EMI) é a densidade e o peso, como nos dias em que pesamos mais que o tempo. Cantelli (EMI) é solar e ascendente. Beecham (BBC) é imparável e surpreendente. Mravinsky (Melodya) é contrastante e inesperado. Reiner (RCA) conta arcos, subidas e tensões. Giulini (EMI, com a Chicago Symphony Orchestra) é de uma intensidade e de uma clareza inesperada. Dudamel (DG) é de uma vivência do ritmo e da veemência que faz revisitar tudo. Gardiner (Archiv), Fricsay (DG) e Skrowaczewski (Oehms) abrem novas escadas.



Mas a «apoteose da dança», como disse Wagner desta sinfonia, está com Carlos Kleiber (Orfeo): todos os riscos, os excessos, os impossíveis, rasgar luz no inferno.


Só posso dizer como disse Jorge de Sena: «Nunca perdoarei o que me fez esta música».

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…