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Mensagens

A mostrar mensagens de Março, 2009

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

A minha integral das Sinfonias de Beethoven

A Sétima


Quando eu morrer - e que seja um morrer a sério, desses que atravessam a luz, e trazem respiração aos que ficam aqui - e olhar para os dias todos que me foram dados para a minha passagem, o que fiz, o que perdi, o que deixei, o que não subi, gostava que fosse a ouvir a Sétima. Sei que nesse momento não vou ouvir com estes ouvidos, mas com o coração. Sei que vou ouvir por dentro, por dentro das coisas todas, da própria substância da música, que é mais verdadeira que o tempo porque é o ritmo do tempo.

Mas dentro da Sétima de Beethoven, eu poderei agradecer a cada coisa a ferida que me fez existir a cada momento.


Não é do conhecidíssimo Allegretto de que falo - mas da voragem que percorre o primeiro andamento, e do crescendo mais recriador de toda a História da Música no final do último andamento. Esta música de batalha, de uma batalha dentro da alma, salvou-me de tantos dias mortos, de dias em que não queria existir, porque não queria per…

PRIVATIZAR O ESTADO

Ontem, na sempre excelente crónica de Rui Tavares no "Público", dava conta de um inquérito que revela como os portugueses querem ver e muito o Estado a assegurar os serviços principais. Rui Tavares fazia uma digressão de como esse facto nos mostra ser de esquerda. Concordo e não acho suportável, ainda para mais depois desta crise, que se considere que essa escolha nacional é pobreza cultural, vício ou imaturidade de um povo que precisa de um governador forte - como durante e pós-Salazarmente foi feito circular. Esta ideia de que Portugal é uma colónia de si próprio é tão fecunda e tão cheia de sinais - e tão errada - que algum dia teremos de nos sentar e discutir isto. Porque, por outro lado, penso que somos o país que menos reflecte sobre o seu estado e a sua história em termos colectivos. Não discutimos nada, ou se sim, em grupos fechados e a discussão não transcende esse gosto tribal inconsequente. Voltando ao Estado: toda a gente o quer, toda a gente sabe que não funciona.…

Rever um romance

Estou a rever o romance 333 que vou publicar em Junho com a Porto Editora. Ter-me acontecido um romance é o mistério maior. Como é que a mim, que tantas vezes nem me lembro como me chamo, me foi dado o mistério de governar 333 personagens? Pergunto-me dia após dia, e agora aqui. Porque tenho a certeza de que se somos a matéria de que se formam os nossos textos, há um quase nada, absoluto, que nos ultrapassa: que vai mais depressa do que duas mãos e uma biografia ao fim do texto, e nos atira com um espelho, uma montanha, um alçapão bem mais largo que os nossos dias. Não sei hoje, não sei mesmo, com as provas diante de mim e as suas vidas a começarem a tornar-se reais, se este livro está satisfeito com o seu escritor. Sei que este livro me escreveu, em tantas noites de dia, até ao ponto em que eu deixei de interessar, e ele, o livro, chegou ao seu destino. Pastorear um verso ou uma personagem é bem diferente (isso é matéria para outras considerações...). Mas, eu, como leitor, que sou feit…

hiBer(li)nar

Em Berlim.

Como é que já vivi aqui, desde quando, desde que quando? conheço estas ruas e elas conhecem-me, sabem o meu nome, o peso exacto do meu olhar. são amantes: o jogo e o prazer do toque, um padrão maravilhosamente repetido, sempre igual, eternamente novo.
sinto as esquinas desta cidade a encontrarem o meu corpo que será, a alma que eu for quando a minha cidade for apenas a luz.
os anjos são ruas e as ruas são anjos.
é tão claro que me pergunto, com esta luz interior que ocupa tudo. porque é que tem de haver uma habitação para as coisas? porque é que não somos livres como esta sensação-existência, esta pertença em absoluto? porque nos agarramos a tantas paredes que morrem, que nos custam o percurso dos dias; porque é que há casas e nós as perdermos?
aqui, directamente, com a pele da alma em rua, toco com os olhos na ressurreição.