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literatura, tudo o que não é evidente

A pedido de várias famílias, segue o texto que acabei de ler nas Correntes de Escritas, esse mar de encontros, com um abraço à Manuela e a toda a equipa.


evidente: o que pode ser visto, o que é visível.

muitas vezes penso que a literatura é como um grande vidro sobre todas as coisas do mundo visível e invisível: quase transparente, quase. podemo-nos aproximar, podemos ver, podemos sentir: uma espécie de tacto. uma espera de presa e atacante, em que raras, mas absolutas vezes, o vidro se parte e passamos para o outro lado do real.

uma imagem navega pela minha infância. era no tempo em que a vida era um dia sucessivo, imenso e longo, à procura da alegria seguinte (as crianças trazem uma dor imensa nas mãos: porque tocam nos objectos possíveis e é como se o peso de bruma das coisas lhes fosse evidente; apesar disso prosseguem, como poços da luz que são, à procura do próximo território real do sonho). era nesse tempo em que o calendário era mais alguma coisa inesperada e manhã. lembro-me de ser pequeno e de o mundo ser uma «grande pergunta de resposta lenta e inexprimível»; eu era como uma grande janela onde todas as coisas passavam por fora, e as coisas eram altas como se a janela fosse todo o chão, e eu precisasse de ter muitos olhos e muitos corações para as abarcar. ouvia os meus pensamentos, muitos, um marulhar diverso que me levava para sítios tão distantes; e mais ainda, de ouvir o eco, essa coisa alta e misteriosa dentro da cabeça, de tantas frases retiradas do mundo, e que passavam pelo grande vidro para o meu coração. e o eco era imenso, como o mar que eu via da janela da casa de verão, e temia sempre que atravessasse a janela, vindo de um profundo tão forte como invisível: que o mar me aparecesse, como um ser, diante da janela, inteiro e uno, em toda a sua força. então tocava na janela, para me aperceber se havia um vidro entre mim e as coisas, entre o mundo e eu – se o vidro era real, se o real era real.

era muito pequeno, teria muito poucos anos no mundo, e um dia em que ouvia tanta coisa passar e bater nessa janela, disse ao meu irmão mais velho: «tenho tantas frases dentro da cabeça que acho que mora alguém lá dentro». o meu irmão pensou que eu fosse esquizofrénico, eu mais tarde também, mas ainda aqui estou a conseguir pastorear todas estas frases. então percebi que o vidro era interior: que o que me separava de todos os seres era a minha própria janela sobre o mundo. debruçado sobre o mundo dentro de mim mesmo, eu poderia chegar a tantos lugares que eu não poderia imaginar.

fui crescendo. o corpo cresce com os olhos e as mãos, depois com o sexo; mas a alma cresce com frases, com perguntas lentas e inexprimíveis, que rasgam o cérebro, tumultam as construções, soterram as memórias para as fazerem surgir a uma luz maior. uma das frases que me assustou a infância tardia (portanto, ainda hoje) foi uma afirmação no Credo, que diz «Deus de Deus, luz da luz». a frase entrava por mim como uma pessoa, imprimindo a sua sede em mim como se o mundo não fosse senão tê-la entre os braços e misturarmo-nos até sermos luz. é isso o amor: dois seres que juntam os corpos para escavarem luz um no outro.

mas como é que duas palavras, perguntava-me então, duas palavras iguais, uma depois da outra, podem bater uma na outra e produzir tanta profundidade?, tanta luz? e então a grande janela partiu-se, e não era já como um chão, mas era o chão e o espaço: e aí percebi que um homem só é vivo se caminhar por dentro, se o seu quotidiano fôr absolutamente interior.

daí à literatura, a perceber que vemos, nos movemos e existimos por metáforas, foi nada e foi tudo. e que a nossa vida no mundo é uma metáfora, um transporte de sentidos do dia em que nascemos até ao que morremos, e ao dia em que voltamos ao grande silêncio, derramando a nossa luz sobre o mundo.

não acredito que possa haver vida fora da metáfora. como acredito que a metáfora é a contínua recriação desse vidro que nos separa do real, e nos faz entrar para dentro de outro real. não acredito, por isso, na polémica que percorre a vida e a poesia dos meus colegas de geração, que pretendem uma poesia do real quotidiano em que o feio e o não metafórico é o objectivo. entendo historicamente esse objectivo, entendo o desafio como exercício de estilo: mas não entendo o centramento numa experiência que esvazia o coração da literatura.

entendo que a vida fora da metáfora é devolver o homem ao seu peso, um saco de ossos. e um homem não é um saco de ossos, é um saco de astros abismado pelo infinito. entendo que na metáfora, e na literatura, o seu território e o seu espelho, tudo o que não é evidente se recria e salva. e o que é evidente não é aquilo que se vê, mas aquilo que está para além de ver, e mais: saber alargar o ver mais, o ver para além de ver, como as vozes dentro da cabeça de uma criança, ou o mar do outro lado, ou a infância inteira. entendo que a missão de um escritor é rasgar-se por dentro, porque com isso salva o próprio mundo. entendo que a literatura, o trabalho sobre o visível e o invisível, e a fina separação que pulsa entre ambas e as faz vivas, é a língua que salva o mundo.

Pedro Sena-Lino

Lisboa-Póvoa, 8-12 Fevereiro de 2009

Comentários

clara boeder disse…
Olá Pedro,

Estou-te a ler de Londres. Fomos colegas de mestrado, no seminário de teoria da literatura.De vez em quando venho aqui espreitar-te e a outros blogues, assim me sinto ligada à minha geração, a Portugal.
O teu blogue é reflexo disso mesmo que afirmas, a literatura à procura do belo e do sentido, por isso gosto de te ler.
um abraço,
Clara Cabral
Brunorix disse…
"... entendo que a missão de um escritor é rasgar-se por dentro..."

Genial!
Eu também a favor das metáforas. Sobretudo no "caminho por dentro".
anareis disse…
Estou fazendo uma campanha de doações para criar uma minibiblioteca comunitaria na minha comunidade carente aqui no Rio de Janeiro,preciso da ajuda de todos.Doações no Banco do Brasil agencia 3082-1 conta 9.799-3 Que DEUS abençõe todos nos.Meu e-mail asilvareis10@gmail.com

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