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O NOME DAS COISAS QUE SE AMAM E NÃO SE TÊM MAIS


Aigues Mortes, finais de Janeiro: uma enorme fortaleza no Mediterrâneo, como se São Luís de França quisesse guardar todo um país antes de o deixar para ir para Jerusalém. Como se quisesse guardar uma vida passada, quietamente inexpugnável.


Gostaria de o fazer com as minhas próprias recordações: guardá-las, como se faz às coisas que se amaram e não se têm mais: os brinquedos de criança, o valor das próprias recordações, o peso certo de uma amizade perdida, ou a emoção perante alguma coisa que hoje me parece mais passado que o passado. Guardar a própria existência física das coisas como coisas físicas na alma.


Porque nos perdemos de nós, tantas vezes, e o passado é a única coisa que conhecemos do nosso rosto.


Imagino este homem, meio santo e meio homem medieval, meio terra e meio imenso, a partir para uma Jerusalém onde não queria encontrar a vingança nem o sangue, mas o rosto real de alguma coisa muito interior e sua que perdera. Ao imaginá-lo, ouço o vento a entrar pela janela de casa da minha infância; tudo destruído: e o que quero é apanhar o vento que entra por essa janela, porque de tudo o próprio vento me parece mais irreal que a própria janela que não existe mais, nem a casa onde era, nem as mãos que traziam o vento.



(a fotografia, outra vez, é de Ludovic Heyraud)




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