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JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS


A minha integral das Sinfonias de Beethoven


A SEXTA


Um homem que não conheça os campos, que não tenha sentido a terra, as montanhas e as grutas, não pode interpretar a Sexta Sinfonia de Beethoven: cito mal e de memória, mas era o que dizia o grande maestro Bruno Walter numa entrevista. O seu programa é um pouco romântico ao rigor da letra, mas compreende-se. Talvez por isso o meu sobrinho Rodrigo, ao ver pelas enésimas vezes, aos três-quatro anos, a Fantasia de Walt Disney, sabia quase toda a sinfonia de cor (o cenário mitológico grego, com Baco e centauros, também ajudava: parecia uma música muito essencial, uma banda sonora da invenção do mundo).

É a Sinfonia de Beethoven que menos ouvi (é verdade, ouço mais a Quarta, de que quase ninguém gosta), e à qual aderi tarde e sobretudo por causa do Rodrigo: já diz o livro dos salmos, "da boca das crianças e dos meninos de peito sai a verdade".


Mas devo dizer que comecei a ouvir sobretudo uma versão diferente, estranha: a versão de Lizst para piano, interpretada por Glenn Gould: todos os ruídos da terra escritos por um surdo e interpretados por um homem que não saía de casa e preferia um estúdio de gravação (0-1 para Bruno Walter).
Não há grandes coisas a dizer: Furtwängler parece pintar o que Nietszche pensava sobre a tragédia e a natureza. É uma versão excelente e está na EMI, na colecção "Réferences". Toscanini é sempre evidente, sobretudo na versão da RCA: embora haja uma certa aspereza no tom que torna as suas paisagens agressivas, quase iminentes.
De novo, Carlos Kleiber: o que se passa na sua Sexta, revelada há dois anos, é o milagre de recriar a terra. Cada momento, cada naipe, cada respiração, cada pontuação, é a própria respiração da terra. Um passeio na terra no dia seguinte à criação.

(Claro que já ofereci esta versão ao Rodrigo.)

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