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autobiografia sonegada à insónia #3

os olhos do mar



na infância inteira sempre senti os olhos do mar pesando-me os gestos. terríveis quando a noite escura abraçava a terra e aquele rugido, como o chicote do vento, era para mim as mãos do terror.
era no tempo em que a vida era um dia sucessivo, imenso e longo, à procura da alegria seguinte. era nesse tempo em que o dia seguinte era sempre maior do que o anterior, nessa invenção do futuro porque é onde apenas uma criança consegue andar. num dia nesse tempo, nesse tempo de um dia só, nas margens do mar, estava diante do mar, a fazer os castelos dos sete anos. o mar tinha chorado muito, pensava eu, porque um tapete de limos jardinava o meu castelo. abria uma cova na areia onde havia pedras partidas, muitas, e até vidros de garrafa que se tornaram pedras do mar (um mistério, para mim, do que o mar podia fazer as coisas: tornar-me-ia eu, se morresse e fosse levado pelo mar, numa coisa tão transparentemente tornada como aquela pedra?). e por baixo daquela pedra, que era quase o tamanho das minhas mãos inteiras, e da pá que inventava o castelo, havia água.
como poderia haver água na praia se não no mar? assustei-me: aterrei-me: tinha aberto uma válvula do mar, como na banheira, e acreditei por momentos e o coração em golfadas, que o mar ia começar a entrar pela praia. afastei-me da cova como se não fosse nada comigo, deitando um olho de vez em quando. o mar não saiu pelo buraco da pedra de vidro, e eu voltei. era um pequeno mar. achei-o perfeito. e quando ia abrir um outra cova, que ao lado surgiu igual à primeira, outra pedra muito verde surgiu. igual à outra, perfeita.
parei imediatamente o castelo. eu tinha encontrado os olhos do mar.

nunca mais a memória me tinha trazido esta vida perdida. tantos dias inteiros dentro de nós, porque será que apenas algumas imagens são a pele do passado?
mas hoje a recordação regressa, abre covas e castelos no presente. por ter sentido, hoje, o olhar do mar de frente.
(a fotografia é de Ludovic Heyraud)

Comentários

etanol disse…
o olhar do mar são duas pedra de vidro :) gostei muito
Maria João
Muito bom, este texto feito de mar e de pedras e aflições de criança. Descobrimos o mundo na infância e depois, já adultos, descobrimos a infância no mundo.
Ana Paula Mata disse…
Li e reli. Fechei.Regressei hoje novamente,e o mar voltou a entrar-me dentro da pele. Forte e intenso.
Momento bom. Das tuas mãos, esse mar passa a ser também para sempre nosso.
Obrigada.

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